Mostrando postagens com marcador semeadores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador semeadores. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Semeadores de Maravilhas, Parte 16 - Não Será Tarde

Eles estão juntos... como não aconteceu antes, quando a juventude lhes roubava o fôlego com sonhos impacientes e desejos urgentes, mas como agora: adultos, experientes, carregando consigo a bagagem de tudo o que viveram e a certeza do que querem.

O olhar dele, porém, não mudou. Descobriu que aquele sentimento jamais o deixou. Apenas adormecera escondido nas entrelinhas do tempo, aguardando a chance de despertar para ser vivido. E quando seus caminhos se encontraram, percebeu a que o amor nascido na adolescência possui a mesma força de antes.

Muitas vezes ele viaja em devaneios vivendo ao lado dela nos dias leves da juventude, com menos preocupações e mais vitalidade. Sonha com os dois caminhando juntos no auge de sua beleza e frescor e carregando a coragem típica dos jovens. Um quadro imaginário que, embora nunca tenha sido vivido, tornou-se parte de sua história, tamanho o sentimento que ele nutre por ela.

Mas hoje eles sabem que o tempo não os castigou e sim ofereceu-lhes uma segunda chance. Agora eles podem viver o amor de forma plena, com a consciência de quem entende que cada momento é precioso. Não há mais pressa, não há mais distrações: apenas a entrega ao sentimento que sempre esteve ali.

E ela… ela continua linda. Permanece feminina, delicada, misteriosa, e é motivo constante de sua paixão e desejo. Ele a olha e enxerga não apenas a mulher de hoje, mas também a jovem por quem um dia ficou perdidamente apaixonado, ambas reunidas em um só encanto.

Assim, o reencontro não é apenas um retorno ao passado. É a celebração também do presente, o reconhecimento de que o amor verdadeiro nunca se perde. Pode até não ser visto, mas quando retorna, vem mais forte, mais inteiro, mais real.

Porque amar afinal é isso: uma semente que o tempo pode adormecer, mas nunca destruir. Porque nunca será tarde.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Semeadores de Maravilhas, Parte 10 - O Encontro, O Abraço II


O retorno para o hotel foi marcado por uma explosão de sensações e pensamentos proporcionados por aquele reencontro. Em todo o tempo, Tin relembrava o passado, sem conseguir conter a emoção pelo que estava vivendo naquele instante, como se o tempo não tivesse passado.

Aquele abraço tão carinhoso quanto inesperado mexeu com suas emoções de tal forma que um brilho no olhar e um indisfarçável sorriso tomaram conta de seu ser. Era quase impossível crer que tudo aquilo era real, e nem se deu conta que caminhava a passos leves e mãos nos bolsos, despreocupado com o horário.

(Tempos depois ele refletiu sobre o que aquele abraço teria representado, e concluiu que ambas as almas precisavam justamente daquele contato – mesmo que por breves segundos – suficientes para que fossem tratadas na dose exata para a necessidade de cada um deles naquela fase de suas vidas).

Já deitado, depois da montanha russa de emoções que o dia havia lhe proporcionado, Tim não conseguia dormir. Os pensamentos continuavam fluindo e fluindo na expectativa do novo encontro marcado para a manhã seguinte antes de sua viagem de volta, mas o que realmente mexera com ele foi o sorriso e o olhar de Mel. Maravilhosamente ainda irradiavam a mesma candura dos tempos que se conheceram, e isso o deixou intensamente feliz.

Havia tantas coisas que gostaria de conversar e compartilhar, perguntas para fazer e responder, que certamente um dia só não seria o suficiente...

Na manhã seguinte, preparou a mala e desceu apressadamente para esperar pela chegada de Mel, que logo chegou, a tempo de tomarem o café juntos. Tim não conseguia disfarçar sua emoção, por reviver as inúmeras conversas que animadamente tinham todos os dias antes das aulas.

Logo em seguida, já acomodados no lobby do hotel ele liga o notebook para olharem fotos, e foi o primeiro momento em que ficaram lado a lado, bem próximos. Ele adorou senti-la encostada em seu ombro, e ali ficaram por mais algumas horas conversando e contando um pouco de suas histórias, antes de se despedirem no aeroporto.

A chama nunca se apagou...

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Semeadores de Maravilhas, Parte 9 - O Encontro, O Abraço

imagem: Google

Tim e Mel comunicavam-se com frequência e aos poucos iam confidenciando suas histórias e situações vividas.

Neste aspecto Tim sempre se mostrou muito insistente por saber como tinha sido a vida dela depois de tanto tempo sem nenhum contato. Ela por sua vez continuava bastante reservada, deixando claro que não iria compartilhar nada além do que até então ele já sabia.

Fato é que a vida pessoal de ambos até pouco tempo havia sido bastante atribulada. Ele enfrentava um sério desgaste no casamento e Mel se reequilibrava após um período igualmente desgastante, tendo encontrado nas caminhadas e corridas de rua fortes aliados para colocar os pensamentos em ordem e, em suas palavras, "colocar os bichos para fora" .

Ele ouvia atentamente suas experiências e essa sugestão chamou a sua atenção também.

Decorridos quase dois anos de sua reaproximação e havendo um evento profissional na cidade de Mel, Tim não hesitou em inscrever-se e separar um dia para encontrá-la.
Comprou o bilhete aéreo,  apesar da maioria dos hotéis da cidade estarem com sua capacidade esgotada. Diariamente visitava os sites de reservas até que há poucos dias da data da viagem, assegurou uma reserva em um hotel inaugurando no dia anterior. Foi o segundo hóspede à confirmar um apartamento naquele hotel onde a história de ambos passaria por grandes mudanças de rumo.

Combinaram o encontro para o início da noite, já que ele retornaria na tarde seguinte.
Tim mal conseguiu participar do evento - durou uma eternidade - pensava ele. As horas custavam a passar e por volta das 17:00 horas ele desistiu e largou tudo. Precisava chegar logo ao hotel, tomar um banho e ir ao encontro de Mel, agora sem disfarçar sua ansiedade por imaginar como seria vê-la,  após tantos anos.

Como se fosse um complô do destino, uma longa fila se formou para os congressistas que desejavam obter um táxi, e isso certamente iria atrasar os seus planos. E para complicar, uma chuva torrencial desabou sobre a cidade, atingindo impiedosamente aqueles que ainda aguardavam sua vez de embarcar.

Foi a conjunção de fatores que causou um engarrafamento na região e quase levou Tim ao desespero, tanto que decidiu saltar na metade do caminho e pegar um metrô na tentativa de chegar logo àquele momento tão esperado. Mandou uma mensagem  explicando o ocorrido e sugeriu encontrem-se em seu hotel.

Mel o tranquilizou dizendo que ainda estava a caminho, e que portanto ficaria mais um tempo na estação de metrô e aproveitaria para ouvir a apresentação de piano enquanto ele não chegasse, e que se encontrassem no local combinado, a estação Metrô Shopping que se situava no meio do caminho entre ambos.

Evitando demorar mais ainda, Tim seguiu direto, mesmo estando com os pés e camisa bastante molhados pela chuva, e assim chegou bem antes que ela ao local, a tempo de passar em uma livraria e comprar-lhe um livro do  de presente - Snoopy -  "Ela deve gostar", pensou.

Ele estava tão nervoso, que errou a data na dedicatória que escreveu, e passou a esperá-la caminhando ansiosamente pelo shopping tentando reconhecê-la entre os milhares de transeuntes daquele horário de pico, até finalmente receber uma mensagem com a localização dela:
" - no subsolo onde os passageiros desembarcam, em frente à uma casa lotérica. Estou te esperando..."

Tim acelerou os passos no ritmo de seu coração rumo ao local indicado, e a viu sentada em um banco, conversando com uma senhora.
Aproximou-se e parou ao seu lado.
- Mel... falou com voz baixa e um pouco trêmula.
Ela se voltou para ele. Seus olhos se encontraram e levantando-se, despediu-se da senhora que cumprimentou Tim com um aceno com a cabeça, sorrindo.
Trocaram um beijo no rosto, quase formal.
- Tudo bem, Mel ?
- Estou bem, e você?
- Vamos tomar um café?
- Sim, vamos...

Foram suas primeiras palavras. 

Subiram para a praça de alimentação, encontraram uma mesa e sentaram-se, conversando amenidades, sem disfarçar que ambos estavam felizes, porém nervosos.

De repente, Mel afasta a cadeira, se levanta e fala:
- Agora deixe-me de te dar um abraço...

Tim levantou-se surpreso com o gesto inesperado e com os braços trêmulos pela emoção e coração disparado, abraçou-a.  Olhos fechados por segundos, trouxeram à sua mente a recordação de todo o passado de ambos.

Eles estavam juntos novamente.

Continua...

terça-feira, 23 de abril de 2019

Semeadores de Maravilhas, Parte 8 - O Telefonema

Imagem: Acervo CEDOC - Fundação Romi


A alegria pelo reencontro, apesar da distância, contagiou a ambos.

Trocavam inúmeros bilhetes diariamente, tanto por e-mail quanto pelo programa de mensagens instantâneas, que lhes possibilitava “falar” em tempo real.

Tim insistiu por diversos dias até finalmente conquistar sua confiança e conseguir o seu   telefone, do trabalho. Ela disse que naquela tarde, por volta das 15 horas faria uma pausa para o café e ele poderia ligar, “se quisesse”...

Enquanto anotava o número, ele olhou para o relógio por duas vezes, para ver quanto tempo ainda faltava para finalmente poder ouvi-la depois de tanto tempo. Ainda era cedo, 08:40 da manhã. A ansiedade naquele momento foi idêntica ao dia em que a esperou passar pelo portão da faculdade em seu último encontro...

As horas se arrastavam, e Tim precisou sair para resolver um imprevisto, que lhe tomou mais tempo do que o usual. Ainda assim ele acreditava que voltaria antes das três da tarde - o que não aconteceu - e para piorar, a bateria de seu celular havia se descarregado completamente.

Sem opção, comprou um cartão e parou no primeiro telefone público que avistou.  Consultou a hora pela enésima vez, tirou do bolso o papel com o telefone dela, limpou a garganta e começou a teclar pausadamente os números, sem conseguir contudo evitar que um arrepio transcorresse seu corpo.

Um toque, outro toque, mãos suando e segurando firme o telefone, enquanto Tim procura evitar ao máximo o barulho da rua, tapando o bocal do aparelho com a mão direita e então:

- Alô...?

A sua voz é inconfundível, e ele sentiu um leve tremor nas pernas, e dois milhões de borboletas revoaram seu estômago com tanta intensidade, que ele precisou de alguns segundos para conseguir soltar a voz:

- Mel, sou eu... Há quanto tempo! Nossa, sua voz está idêntica...

- Tudo bem com você? A sua também não mudou nada...

- Tudo. Está podendo falar?

- Tenho pouco tempo de intervalo. Estou aqui dividindo minhas bisnaguinhas com requeijão com um peludo que apareceu por aqui com cara de pidão.. (risos).

- Esses cachorros... (riso nervoso). Mas me diga, sempre sai nesse horário? Poderíamos falar mais vezes, se você não se importar.  

- Acho que sim, mas agora preciso mesmo desligar tá? Adorei falar com você.

- Eu também... até mais então. 

- Até. Tchau. 

Pronto. Agora não havia mais barreiras e tudo estava apenas começando.

Continua...

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Semeadores de Maravilhas, Parte 7 - Recomeçando... (Just Like)

Imagem: Freepik

- Muito obrigada pela música. Adorei! Foram as primeiras palavras que trocaram depois de tantos anos...

Tim não conseguia conter sua alegria e nem precisou muito para começar a fazer todas as perguntas que haviam ficado para trás no tempo.

- Você faz muitas perguntas, Tim. Não vou contar-lhe nada da minha vida!

- Ok, não precisa contar tudo. Vou fazer uma pergunta por dia, pode ser assim?

- Pode, teclou ela sorrindo, Mas respondo só as que eu quiser...!

- Aham, combinado. Pergunta do dia! Posso? Ela sorriu novamente e assentiu.

- Qual é seu telefone?

- Mas que atrevido! Como ousa pedir assim o telefone no primeiro encontro, rapaz?

- Para eu te ligar, oras...

- Está bem, mas não abuse das perguntas. Anote o número:... (longa pausa)

E teclou dez asteriscos (**) ****-****

Desta vez foi ele quem não se conteve e deu uma sonora risada. Sem perceber, Tim havia se reencontrado também com o espírito dos “early years” em sua melhor e mais despretensiosa fase.

- Mas veja só - respondeu - Idêntico ao meu número, quem diria? Quer dizer que sempre tive o seu número e nunca liguei? Quantas horas perdidas na internet e nas listas telefônicas de sua cidade... Esse é o meu telefone, quem sabe um dia podemos nos falar, sem ser por mensagem, não é?

Era o início de muitas mensagens, onde contariam fatos do passado, do tempo em que estiveram juntos, relembrando de fatos e pessoas:

... Era uma senhora muito bonita, delicada, perfumada e usava pérolas (adoro pérolas) eu entrava na sala e conversava com ela sobre algumas coisas, coisas de menina. Ela era muito doce e me ouvia, nunca encontrei alguém assim...”

Ambos não faziam ideia do que estava porvir, nem do quanto estavam também se ajudando...

It's been too long since we took the time
No-one's to blame, I know time flies so quickly
But when I see you darling
It's like we both are falling in love again
It'll be just like starting over
Starting over
Why don't we take off alone
Take a trip somewhere far, far away
We'll be together all alone again
Like we used to in the early days 

(Just Like) Starting Over - John Lennon)
R. 16/02/2019

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Semeadores de Maravilhas, Parte 6 - É Ele... É Ela... São Eles!

imagem: depositphotos

Parecia, ao que tudo indicava.

Desencontros, tristezas e resiliência fizeram com que seguissem suas vidas adiante, numa certa semelhança com a peça pregada aos protagonistas do filme "Splendor in the Grass", onde  seguem o rumo que suas vidas tomaram,  guardando no coração o amor que lhes pertencia.

Casaram-se e tiveram filhos. Uma menina e depois um menino (foi assim com ambos), e viveram felizes com suas famílias, crescendo, educando-os e buscando proporcionar-lhes o melhor que pudessem. 

Entretanto, em algum momento, sobreveio-lhes tempestade, com o rugido, o bramar e  estrondo dos relâmpagos. A torre do farol ficava-lhes cada vez mais distante pelas fortes ondas  que empurravam seus barcos para longe da costa, numa batalha que se desenhava quase invencível entre a firmeza da terra e o perigo do mar bravio .

Desaguaram em praia deserta, exauridos e precisando unicamente de um braço para ajudá-los a reerguerem-se e recomeçar tudo de novo.

Ambos não faziam a menor ideia do que a vida lhes reservava, e prosseguiram adiante, até que um dia, a filha de Mel, que possui traços físicos que lhe fazem muito parecida com sua mãe, a observa olhando o perfil de Tim numa rede social e pergunta:


- Quem é?
- Um amigo, minha filha. Apenas um amigo.
- Adicione ele...
- Não farei isso.
- Mas ele não é seu amigo? O que tem?
- Não, filha! Não vou adicionar ninguém.

Passaram-se alguns dias e de novo ela observa  sua mãe novamente olhando o perfil daquele mesmo amigo, e na terceira vez ela pergunta:

- De novo? Ele deve ser muito amigo, heim? Com licença...

E num gesto rápido, clicou o botão que os colocaria em contato. Pronto! Não havia mais o que ser feito e o destino deve ter lançado aquele sorriso vitorioso lá de cima: tarefa cumprida!

No dia seguinte, Tim viu aquela notificação da rede social e quase caiu da cadeira com tamanha surpresa. Imediatamente aceitou a solicitação e passou longos minutos olhando o perfil da Mel, que tanto procurara sem sucesso até então. E ela continuava linda como sempre. Seu rosto não tinha perdido aquele olhar de menina que o havia encantado desde o dia em que se conheceram.

Viu inclusive, uma postagem com a música “Stairway To Heaven” dedicada a ele, com uma breve mensagem: “Saudades, Tim”, que seus filhos sempre perguntaram quem era.  Foi o suficiente para ele começar a teclar uma mensagem pedindo seu telefone e e-mail para conversarem.

Mel mandou uma resposta bem gentil, passando somente o endereço de e-mail, que ele prontamente respondeu enviando-lhe uma música com o nome dela que muito a agradou, visto que  também curtia tanto a canção quanto o artista. 

Eram as afinidades começando à aparecer.

(continua...)

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Semeadores de Maravilhas, Parte 5 - Sem Contato


Tim concluiu seu curso sem muito ânimo. Era complicado para ele passar diariamente pelas escadas que testemunharam tantas horas de conversas e risadas e saber que não teria mais aqueles momentos. Mesmo assim, todos os dias à cada entrada em sala ele sempre dirigia seu olhar para o local onde sentavam-se, torcendo por intermináveis segundos, que ela estivesse de volta e seus olhares se encontrassem com sorrisos silenciosos enquanto ele se dirigia até ela.

Àquela altura do curso, seu círculo de colegas já era bastante restrito, e por esse motivo hesitou em participar das comemorações de formatura, tendo confirmando sua presença somente no último momento, com a participação da missa celebrada justamente na Paróquia em frente à praça onde haviam tido o seu primeiro encontro...

Dias depois, no tradicional baile, havia sido convencionado que os formandos receberiam os diplomas acompanhados por seus respectivos pares, o que fez com que Tim quase desistisse de subir ao palco, desacompanhado que estava, e aquele momento deveria ser dele e Mel.

Os colegas perceberam a situação e contornaram tudo, arrumando-lhe uma conhecida que pudesse  acompanha-lo na hora da diplomação. Entre subir, receber o diploma e sair da cena, foram três longos minutos. Ele agradeceu a companhia, se desfez do canudo (vazio) no primeiro cesto de lixo avistado e permaceceu no local por mais ou menos uma hora antes de ir embora sem se despedir de ninguém.

Naquele mesmo ano, Mel também se formara. Ele sempre imaginou como teria sido a sua festa de formatura, quem a acompanhara e como ela se vestira. 

Passado algum tempo, Tim mudou-se para outro bairro, e depois de cidade.

Mel tentou corresponder-se com ele, porém em outra das peças do destino, as cartas que poderiam quem sabe reaproximá-los, nunca lhes chegaram às mãos. Por certo ela imaginou seu desinteresse e não insistiu mais.

Seguiram suas vidas, seus destinos.

Certa vez, Tim esteve de passagem por Paris. Buscou um catálogo telefônico e arriscou uma chamada para Mel. O endereço era outro, mas estava convicto de que aquele era o da “sua” Mel e decidiu arriscar uma chamada.

- Não quero nem saber, vou tentar, decidiu.

Um toque, dois toques e um “- Alô...”

- Alô, é da casa da Mel?

- Sim...é ela falando (voz parecida)

- Olá...é o Tim (voz trêmula)

- Desculpe, quem está falando?

- Mel, é o Tim, do colégio...

- Acho que você está procurando outra pessoa, talvez seja um homônimo, desculpe.

- Ah sim, pode ser, desculpe, foi engano. Obrigado...

Desligou o telefone e voltou para o seu trabalho, certo de que haviam perdido totalmente o contato e que nunca mais iria conseguir revê-la.

E o destino parecia haver selado a história deles.

(continua...)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Semeadores de Maravilhas, Parte 4 - O Afastamento



Tim não contou para Mel sobre o ocorrido no sábado anterior quando se encontraram no colégio na segunda-feira. Com toda a sua timidez, preferiu guardar o segredo para si, aproveitando que agora teria toda a semana para vê-la, e assim foi até o final do ano letivo. 

O novo ano trouxe mudanças para Tim. Mel decidira não se matricular para o segundo ano do curso e foi estudar em outro colégio, e pela primeira vez ele sentiu-se deslocado na sua classe. Havia os colegas do ano anterior, porém o vínculo forte e a companhia agradável era somente a dela. Para ele, as aulas tornaram-se insuportavelmente monótonas. 

Perder o contato foi para ele um duro golpe. Vez ou outra telefonava para o escritório onde Mel trabalhava e falavam muito brevemente, mal dando tempo para cumprimentarem-se e saber que estava tudo “indo bem”. 

Foi nessa época que começaram a se corresponder por cartas, coincidindo também com a terceira mudança de endereço de Tim, agora para um apartamento mais próximo de seu local de trabalho e também da escola, o que proporcionou uma ambientação menos difícil. 

Na metade deste mesmo ano, a empresa onde Tim trabalhava mudou sua sede para o lado oposto da cidade e o contato telefônico ficou mais espaçado. Ele assumira uma função gerencial que lhe exigia muito tempo e em uma das poucas vezes que se falaram, combinaram de se encontrar no horário da aula. 

Mel foi visitá-lo primeiro, enchendo seu coração de alegria. Eles saíram do pátio do colégio e foram sentar-se em um banco de praça em frente à Paróquia São Joaquim. Finalmente depois de tanto tampo, estavam à sós e poderiam matar as saudades. Conversaram longamente e depois de algumas horas, ela se despediu com um carinhoso beijo no rosto, muito próximo de seus lábios. Tim não acreditou que aquele sinal correspondia ao mesmo sentimento que ela tinha para com ele. 

Pouco tempo depois, foi a vez de ele ir ao encontro de Mel. O colégio era enorme, e se encontraram na área interna. Ela não poderia sair e eles tiveram pouco tempo juntos. O resultado deste segundo encontro mexeu com ambos. É claro que havia sentimentos envolvidos, e em sua imaturidade juvenil, outra vez ambos não colocaram para fora o que nutriam um pelo outro. 

Mel, entretanto era mais decidida, e certa noite sem combinar nada, foi ao seu encontro para ter uma conversa definitiva. Estava disposta a abrir seu coração e tinha a certeza de que ele faria o mesmo. Só não contava que seria barrada na portaria e impedida de encontrá-lo. Então foi embora. (Ele só soube dessa tentativa muitos anos depois).

Tim decidiu enfim, fazer uma nova visita. O que ele não contava era que dessa vez ela lhe dissesse que estava namorando. Sem ter palavras ou o que argumentar, porém muito triste, despediu-se e sem conseguir olhar para trás, retirou-se.  Esse encontro demorou apenas os poucos minutos que levaram entre se cumprimentarem e ela lhe dar a notícia. Mel acompanhou, com os olhos, seus passos lentos em direção ao portão até desaparecer de sua visão. 

Foi esta a última vez que se viram, antes que o destino...

quarta-feira, 15 de março de 2017

Semeadores de Maravilhas, Parte 3 - Quase


Não foi preciso muito tempo para que ele se desse conta de que “gostava” - por esse “gostar” entenda-se apaixonado mesmo - da Mel.  Mudou a motivação para chegar ao colégio, e logo as disputas de tênis de mesa foram abandonadas. Agora ele ficava esperando por ela no mesmo local onde a viu pela primeira vez.

Colegas passavam, cumprimentavam e chamavam para um café antes da aula – por que ela demora tanto para chegar??? – que ele acabava aceitando e bebia rapidamente na lanchonete do Natal, sem tirar os olhos do portão da entrada.

Tão logo se encontravam, já tomavam seus lugares nos degraus da escada, em conversa que só terminaria no final da aula. Em sala eles até “prestavam atenção” nas matérias, e (quase) não colavam nas provas.

Foi um ano feliz. Uma grande empatia, amizade e cumplicidade nasceu desses dias no Liceu. Tin não via o momento de chegar a segunda-feira para poder revê-la. Foi à partir desse sentimento que num sábado ele resolveu encontrá-la e abrir seu coração. Saiu à noite determinado e com a certeza de que a encontraria na discoteca em que ela costumeiramente ia dançar nos finais de semana.

Saltou do ônibus no final da rua onde morava Mel, e com uma sensação de frio na barriga e suor nas mãos, começou a caminhar pensando como e o que falaria quando à encontrasse.

E nesse momento foi surpreendido por uma daquelas chuvas torrenciais que desabam do nada, justamente quando não se acha um lugar para se abrigar. Totalmente ensopado ele decidiu voltar para casa, adiando mais uma vez o que queria tanto dizer para ela...

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Por Perto



No florescer das maravilhas

Trago comigo a lembrança

Da semente que se colheu.

A cada manhã

Te vejo por perto

quinta-feira, 31 de março de 2016

Semeadores de Maravilhas, Parte 2 - A Amizade

Imeagem: Google


Não demorou muito tempo para que logo ele ficasse interessado em chegar rapidamente ao Liceu. Trabalhando à poucos quarteirões, tão logo saia da empresa em poucos minutos já estava no hall de entrada, percorrendo os corredores com um rápido olhar para confirmar se Mel havia chegado (mesmo tendo quase certeza de que ela nunca estaria ali naquele horário...).

Para amenizar a ansiedade, Tim ocupava seu lugar na mesa de ping-pong, onde raramente vencia as competições diárias, desatento que ficava por dividir a atenção entre a partida e a porta de entrada.
Bastava que Mel apontasse no corredor, para imediatamente Tim largar sua raquete com o próximo jogador e abandonar o jogo, subindo com rapidez a escadaria e juntos irem para a sala de aula.

As conversas nos degraus da escada eram cercadas de muitas risadas e momentos divertidos. Todos os colegas de turma os viam juntos, e houve até comentários do tipo: "- parecem namorados...", mesmo sem nunca terem sido vistos de mãos dadas.

Certo é que Tim, apesar de seu desprendimento nas conversas, não conseguia controlar sua timidez.

A amizade foi aumentando e logo a maioria do tempo disponível era usado por eles para compartilharem situações cotidianas. Ele comentava fatos de sua vida, atentamente ouvidos por Mel.

Ao final das aulas, os dois pegavam seus respectivos ônibus - que percorriam praticamente o mesmo trajeto - até se encontrarem novamente no dia seguinte...

segunda-feira, 14 de março de 2016

Às Vezes...

Foto: Google

Às vezes eu me encontro comigo mesmo no centro da cidade, no meio da tarde, e me convido para tomar um chopp num bar à beira-mar, em pleno planalto central.

Reluto em aceitar convites assim tão inusitados, mas inexplicavelmente dou os braços para aquele menino, num misto de excitação e perplexidade: eu no centro da cidade, com tanta coisa por fazer, sentado comigo mesmo, a beber.

Daí ouço-me falar do tempo, misturando no temperamento jeans com cetim. A boca grande, alguns rompantes de criança, rindo do meu próprio dia a dia, eu vivendo assim. E sem ironias e julgamentos, deixo-me falar, com os olhos quentes latejando em mim.

Abato sem dificuldades os problemas entornados e novamente sorrio sem me ferir, deixando-me preencher com o vazio de ideias quando o assunto é qual caminho seguir.

E fico enlevado ali, eu comigo mesmo, me metamorfoseando num poeta, num pássaro, num contribuinte, num semeador, levando-me a acordar no outro dia numa bruta ressaca para ir trabalhar, mas com saudades...

Com uma imensa saudade do mar.

Adaptado da prosa poética "Jeans Com Cetim" - Carlos Edu Bernardes em Semente de Saudade, 2015

quarta-feira, 2 de março de 2016

Semeadores de Maravilhas, Parte 1 - O Início

imagem: Google

Tim e Mel conheceram-se aos quinze anos de idade.  

De fato, seus caminhos se encontraram nessa época, durante o início do distante ano de 1979, quando o destino os uniu de locais tão distantes para o mesmo Liceu Educacional;

Um dia, no início do ano, tendo chegado ao colégio com bastante antecedência, ele permaneceu no hall de entrada aguardando os longos minutos que faltavam para o início das aulas, quando viu passar duas garotas. 

Ele não conseguiu desviar seu olhar daquela menina de cabelos aloirados e presos, trajando uma camisa azul-celeste e jeans cinza claro, sorriso radiante, entretida em uma conversa animada com a amiga.

Intrigado, Tim a seguiu até a escada que dava acesso às salas, e para sua surpresa, ambas eram de sua sala.

Feita a sua parte, com o destino colocando ambos na mesma sala, em pouco tempo a amizade brotou das cadeiras das últimas fileiras para longas e animadas conversas em aula, mas principalmente na escadaria antes do início da aula, pouco se importando com nada ao redor.

Ao final das aulas, pegavam ônibus de diferentes linhas que faziam, quem diria, praticamente o mesmo trajeto que os separava por apenas poucos quarteirões....