Eu te desejo tanto
Envolve-la em meus braços
Sem pressa,
desnuda-la
Beijar cada centímetro
Do seu corpo
E sentir o teu respirar
Tocar você
Beijar você
Amar você
Como eu te desejo...
Tanto
🌹
Um local de poemas, crônicas, contos, imagens e músicas...
Eu te desejo tanto
Envolve-la em meus braços
Sem pressa,
desnuda-la
Beijar cada centímetro
Do seu corpo
E sentir o teu respirar
Tocar você
Beijar você
Amar você
Como eu te desejo...
Tanto
🌹
Richard decidira voltar ao shopping, e chamou um
táxi. Passou o endereço ao motorista e foi acompanhando o trajeto olhando pela
janela as ruas passarem, pensando em tudo o que estava vivendo naquele dia.
Já próximo ao destino, notou que estava defronte do
endereço de sua empresa, e pediu para saltar ali. Pagou a corrida e desceu
agradecendo.
Ao entrar novamente no edifício da empresa, as
luzes piscaram abruptamente outra vez.
Tudo mergulhou na escuridão por breves segundos.
Richard sentiu novamente o mesmo vazio estranho
atravessando seu corpo, como se o tempo ao redor se dobrasse silenciosamente.
Depois, os sistemas começaram a reiniciar-se aos
poucos, acompanhados pelos bipes eletrônicos dos equipamentos.
Ao fundo, quase imperceptível no ambiente
silencioso da recepção, uma melodia clássica ecoava suavemente.
Rhapsody on a Theme of Paganini.
Richard fechou os olhos por um breve instante.
Um arrepio percorreu lentamente sua pele.
Aproximou-se da portaria.
- Boa noite, senhor Richard.
- Boa noite.
- Notei que o senhor não retornou do almoço.
Todos já saíram da empresa. As chaves do seu carro estão aqui.
Richard permaneceu estático.
- Obrigado... Só mais uma coisa. O senhor teria o
jornal de hoje?
- Claro.
O porteiro entregou-lhe o exemplar.
Richard segurou o jornal com as mãos levemente
trêmulas.
Então olhou a data:
31 de março de 2026.
Seu coração disparou.
Havia voltado.
Devolveu o jornal e subiu apressadamente até sua
sala.
Digitou a senha da fechadura eletrônica:
2303
Acendeu as luzes e encontrou tudo exatamente como
deixara horas antes.
Seu celular estava sobre a mesa e a bateria marcava
apenas cinco por cento.
- É suficiente... murmurou.
Abriu rapidamente o aplicativo de chamadas e
selecionou o contato.
Um toque.
Outro.
Mais um.
A ansiedade apertava novamente seu peito.
- Atenda... por favor...
Então a ligação foi completada.
- Oi, amor. Está tudo bem?
- Elise...
Richard fechou os olhos ao ouvir aquela voz. A mesma voz.
Depois de tudo.
- Elise... sou eu. Repetiu.
- Sim, eu sei. Está tudo bem?
Ele sorriu emocionado.
Sentiu os olhos marejarem discretamente.
- Está sim. E as crianças?
- Estamos todos bem.
Richard respirou profundamente.
Tudo dera certo.
O destino havia mudado.
E agora existia uma vida inteira construída ao
lado dela.
- Ótimo. Estou indo para casa. Em poucos minutos
chegarei para jantarmos.
- Estamos esperando você.
Houve um breve silêncio.
Então ele disse, com a voz baixa:
- Eu te amo, querida.
Do outro lado da linha, Elise sorriu antes de
responder:
- Eu também amo você, “Sr. Richard...” ela
respondeu em um tom bem humorado, em clara alusão ao dia que começaram o
namoro.
A ligação terminou.
Richard permaneceu imóvel por alguns segundos,
segurando o celular junto ao peito.
Antes de sair, Richard se lembra de um detalhe, vaculha seu armário e encontra a caixa onde deposita itens pessoais e papéis
importantes.
Dentro: a carta de três páginas que Elise escrevera em 1980, guardada em um envelope plástico que garantia a sua preservação.
Abriu cuidadosamente o envelope e releu com atenção
cada parágrafo. Mas agora havia algo diferente.
No verso da última folha está escrito:
“Se algum dia você conseguir voltar… não desista
de mim outra vez.”
Com certeza absoluta: essa frase nunca existira
antes.
Guardou tudo de volta e então apagou as luzes da
sala.
Caminhou lentamente em direção ao elevador. Dessa vez, porém, já não havia medo, apenas a silenciosa felicidade de quem finalmente havia conseguido se reencontrar com o destino.
---♡---
- Elise, podemos ir de táxi? Meu carro ficou na
empresa e...
- Sim, claro. Sem problema, ela respondeu
assertivamente.
Durante todo o trajeto, conversaram animadamente,
como nos tempos do Liceu, porém falavam baixo para o motorista não ouvir. De
vez em quando ele os olhava pelo retrovisor e sorria com a felicidade que eles
expressavam.
Chegaram ao destino em aproximadamente trinta
minutos, e ela combinou que iria verificar as matérias do dia, para poder sair
com ele e passar mais um tempo juntos.
Richard a aguardou na entrada, no mesmo ponto onde
havia conversado com Elise anos atrás, e ela havia contado uma notícia que
arrasou seu coração.
Ele olhou tudo pensativo.
Tudo acontecera por haver demorado apenas uma
semana.
"Se" tivesse chegado uns poucos dias
antes...
Por isso hoje ele fazia questão de não desejar
voltar.
Alguns minutos depois, ele observou Elise vindo em
sua direção. Exatamente mesma cena, no mesmo local e isso fez percorrer um
calafrio em sua espinha.
- Ri, há algo que eu preciso falar com você...
Richard ficou paralisado.
"- ah, não...!!! Não de novo???..." Ele
pensou.
- Sim, pode falar...
Seus olhos baixaram, segurando uma tristeza que o
invadiu. Estava tudo se repetindo, ela iria desistir do namoro e eles iriam
seguir suas vidas, como já havia acontecido num passado distante.
- Ri, hoje surgiu uma aula importante, talvez eu tenha
prova e não posso me ausentar, por isso não poderei ficar aqui com você hoje.
Mas amanhã eu gostaria muito de nos encontrarmos.
Uma onda de alívio e felicidades invadiu a alma de
Richard nesse momento, e ele sorriu novamente.
- Claro, amor. Claro. Faça uma boa prova e amanhã
nos encontramos e teremos muito tempo para colocar nossos assuntos em dia.
Elise concordou com um sorriso, deram um beijo de
despedida e ele se virou para ir embora.
Elise - exatamente como da outra vez - ficou
observando Richard se afastar.
De repente, ela exclamou:
- Richard!!
Ele se virou.
Elise correu em sua direção e, ao
alcançá-lo, abraçou-o fortemente antes de beijá-lo mais uma vez.
De olhos fechados, sentindo o coração acelerar, ela
sussurrou:
- Eu te amo, Ri. Fiquei muito feliz com sua
visita... com seu pedido... Nunca se esqueça disso nem do que lhe escrevi.
Richard acariciou o rosto dela.
- Amo você desde o instante em que a vi pela
primeira vez, Elise. Eu não poderia deixar este dia terminar sem lhe dizer
isso.
Trocaram mais um beijo.
Então foram lentamente soltando as mãos, até que os
dedos já não conseguiram mais permanecer unidos.
Elise voltou para a sala de aula.
Richard permaneceu imóvel por alguns segundos,
observando-a se afastar.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, seu coração
estava em paz.
- Eu queria trazer um flores para você, mas não
encontrei nenhuma floricultura por aqui...
- Ri, não é preciso...
Os olhos dela expressaram um sentimento recíproco.
Richard se aproximou e eles se beijaram, sorrindo, tímidos
mas muito felizes.
- Eu aceito, “Sr.” Richard, disse Elise.
Richard acariciou os cabelos dela, sem conseguir
desviar os olhos daquele olhar encantador.
- Estou muito feliz, “Sra” Elise.
- Agora por favor, me conte sobre a tal formatura
sua. Eu não entendi o que quiz dizer.
Sem conseguir disfarçar o nervosismo, ele explica,
evasivamente:
- Eu acho que sonhei com a minha formatura do
Liceu, e você não estava comigo no momento da diplomação. Tiraram fotos e eu
lhe mostrava, dizendo que aquele lugar ao meu lado pertencia a você.
- Que sonho estranho...
- Alguns são mesmo, Elise. Mas este que estamos
vivendo agora é real: eu e você, namorando.
Elise sorriu e novamente se beijaram discretamente.
Conversaram bastante depois que ela almoçou.
Falaram sobre planos para o final de semana e
combinaram que ele a acompanharia para sua escola naquela noite. Ele poderia
entrar e conhecer seu colégio, e quem sabe até cursarem juntos os dois anos que
restavam para sua graduação.
Richard mal se continha de felicidade.
Voltaram ao edifício onde ela trabalhava e se
despediram com outro beijo.
Faltavam ainda três horas para o fim do expediente
de Elise e Richard decidiu esperá-la no shopping, aproveitando para revisitar
as lojas, a moda e os objetos daquele tempo.
Entrou em uma loja de discos e permaneceu ali por
longos minutos, observando atentamente os LPs expostos. Alguns daqueles álbuns
ainda faziam parte de sua coleção décadas depois.
Enquanto lia as faixas e fichas técnicas dos
discos, não conseguia deixar de pensar em Elise e na sensação quase irreal de
finalmente estarem juntos como namorados, realizando um sonho interrompido pelo
destino.
Mas agora havia também outra sensação crescendo
silenciosamente dentro dele.
Medo.
Richard observava tudo ao redor tentando
compreender as consequências daquilo.
“E se eu alterar alguma coisa?”
“E se nada disso devesse acontecer?”
Pela primeira vez desde o encontro, sentiu um calafrio atravessar-lhe o corpo.
Ainda assim, bastava lembrar-se do sorriso de Elise
para que todas aquelas dúvidas perdessem força.
Richard já compreendia o que havia acontecido desde
o estranho apagão no elevador.
Não cogitou retornar ao trabalho.
Precisava viver aquilo.
Precisava consolidar aquela nova linha do tempo
que, de alguma forma inexplicável, lhes fora concedida.
E desejava intensamente fazê-lo, por isso
comprometeu-se consigo a acompanhá-la até a escola naquela noite. Depois
deixaria a vida os conduzir.
Às dezessete horas, pontualmente, estava diante do
edifício aguardando Elise.
A ansiedade desapareceu no instante em que a viu
sair do elevador.
Sorriu ao contemplar seus passos delicados vindo em
sua direção, acompanhados daquele sorriso que apenas ela sabia oferecer e que
era capaz de preencher seu coração de felicidade.
Naquele instante, sentiu novamente as antigas
borboletas no estômago.
Cumprimentaram-se com um beijo apaixonado e saíram
do prédio em direção à avenida.
Richard se deu conta, então, de que seu carro havia
ficado no estacionamento da empresa, na outra janela do tempo.
A percepção o atingiu de maneira abrupta.
Parou por um instante na calçada, observando as
próprias mãos. Tremiam discretamente.
Richard fechou os dedos devagar, tentando controlar
a ansiedade crescente que percorria seu corpo. Respirou fundo, mas o ar parecia
insuficiente. Uma sensação estranha de irrealidade continuava pressionando sua
mente, como se a qualquer momento ele pudesse despertar daquele cenário.
Olhou ao redor.
Os carros antigos cruzavam lentamente a avenida
iluminada pelos letreiros da época. Pessoas caminhavam usando roupas típicas do
início dos anos oitenta. O brilho das vitrines refletia-se nos vidros dos
edifícios enquanto a cidade pulsava viva ao redor deles.
Tudo parecia real demais.
Richard passou os dedos sobre a lataria de um táxi
estacionado próximo dali. Sentiu o metal frio sob a palma da mão, a pequena
irregularidade da pintura, o cheiro característico de gasolina misturado ao ar
úmido da avenida.
Se fosse um sonho, era o mais perfeito e intrigante
que já tivera.
Por um breve instante, o medo atravessou seu peito.
“E se eu estiver delirando?”
A ideia surgiu seca em sua mente.
Talvez tudo aquilo tudo fosse apenas uma construção
desesperada de sua memória.
Mas então Elise apertou suavemente sua mão,
trazendo-o de volta ao presente, ou ao passado...
Richard voltou os olhos para ela.
E imediatamente todas as dúvidas perderam força.
Ainda assim, outra inquietação começou a crescer
silenciosamente dentro dele.
“E se eu mudar alguma coisa?”
Seu coração acelerou novamente.
Porque, pela primeira vez desde que a encontrara,
compreendeu verdadeiramente a dimensão daquilo que estava vivendo.
Talvez pudesse voltar. Talvez não.
E, naquele instante, Richard percebeu algo ainda
mais sério: não tinha certeza se desejava mesmo retornar...