Richard decidira voltar ao shopping, e chamou um
táxi. Passou o endereço ao motorista e foi acompanhando o trajeto olhando pela
janela as ruas passarem, pensando em tudo o que estava vivendo naquele dia.
Já próximo ao destino, notou que estava defronte do
endereço de sua empresa, e pediu para saltar ali. Pagou a corrida e desceu
agradecendo.
Ao entrar novamente no edifício da empresa, as
luzes piscaram abruptamente outra vez.
Tudo mergulhou na escuridão por breves segundos.
Richard sentiu novamente o mesmo vazio estranho
atravessando seu corpo, como se o tempo ao redor se dobrasse silenciosamente.
Depois, os sistemas começaram a reiniciar-se aos
poucos, acompanhados pelos bipes eletrônicos dos equipamentos.
Ao fundo, quase imperceptível no ambiente
silencioso da recepção, uma melodia clássica ecoava suavemente.
Rhapsody on a Theme of Paganini.
Richard fechou os olhos por um breve instante.
Um arrepio percorreu lentamente sua pele.
Aproximou-se da portaria.
- Boa noite, senhor Richard.
- Boa noite.
- Notei que o senhor não retornou do almoço.
Todos já saíram da empresa. As chaves do seu carro estão aqui.
Richard permaneceu estático.
- Obrigado... Só mais uma coisa. O senhor teria o
jornal de hoje?
- Claro.
O porteiro entregou-lhe o exemplar.
Richard segurou o jornal com as mãos levemente
trêmulas.
Então olhou a data:
31 de março de 2026.
Seu coração disparou.
Havia voltado.
Devolveu o jornal e subiu apressadamente até sua
sala.
Digitou a senha da fechadura eletrônica:
2303
Acendeu as luzes e encontrou tudo exatamente como
deixara horas antes.
Seu celular estava sobre a mesa e a bateria marcava
apenas cinco por cento.
- É suficiente... murmurou.
Abriu rapidamente o aplicativo de chamadas e
selecionou o contato.
Um toque.
Outro.
Mais um.
A ansiedade apertava novamente seu peito.
- Atenda... por favor...
Então a ligação foi completada.
- Oi, amor. Está tudo bem?
- Elise...
Richard fechou os olhos ao ouvir aquela voz. A mesma voz.
Depois de tudo.
- Elise... sou eu. Repetiu.
- Sim, eu sei. Está tudo bem?
Ele sorriu emocionado.
Sentiu os olhos marejarem discretamente.
- Está sim. E as crianças?
- Estamos todos bem.
Richard respirou profundamente.
Tudo dera certo.
O destino havia mudado.
E agora existia uma vida inteira construída ao
lado dela.
- Ótimo. Estou indo para casa. Em poucos minutos
chegarei para jantarmos.
- Estamos esperando você.
Houve um breve silêncio.
Então ele disse, com a voz baixa:
- Eu te amo, querida.
Do outro lado da linha, Elise sorriu antes de
responder:
- Eu também amo você, “Sr. Richard...” ela
respondeu em um tom bem humorado, em clara alusão ao dia que começaram o
namoro.
A ligação terminou.
Richard permaneceu imóvel por alguns segundos,
segurando o celular junto ao peito.
Antes de sair, Richard se lembra de um detalhe, vaculha seu armário e encontra a caixa onde deposita itens pessoais e papéis
importantes.
Dentro: a carta de três páginas que Elise escrevera em 1980, guardada em um envelope plástico que garantia a sua preservação.
Abriu cuidadosamente o envelope e releu com atenção
cada parágrafo. Mas agora havia algo diferente.
No verso da última folha está escrito:
“Se algum dia você conseguir voltar… não desista
de mim outra vez.”
Com certeza absoluta: essa frase nunca existira
antes.
Guardou tudo de volta e então apagou as luzes da
sala.
Caminhou lentamente em direção ao elevador. Dessa vez, porém, já não havia medo, apenas a silenciosa felicidade de quem finalmente havia conseguido se reencontrar com o destino.
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