Era um dia de férias em que o acaso decidiu brincar de memória.
Outrora formaram um par daqueles que todos
acreditavam serem namorados, tamanha era a empatia e demonstrações de carinho
entre ambos. Depois, a vida tratou de separar seus caminhos, construir outras
histórias e criando silêncios longos o suficiente para parecerem definitivos.
Nunca mais se viram. Nunca mais se procuraram.
Até aquele domingo na área de lazer de shopping, dessas cheias de risos
infantis e cheiro de lanche...
Ele estava ali apenas com seus filhos, desfrutando de um raro momento em que o tempo pareceu
desacelerar: risadas fáceis, correria sem pressa, alegria sem fim. Os três se
divertiam até mesmo quando entravam na longa fila para o lanche.
Foi então que dois olhares se cruzaram no meio
de tantas pessoas naquele ambiente. Eles se viram e se reconheceram
imediatamente.
Era Elise, acompanhando seus filhos, que curiosamente aparentavam
ter a mesma idade dos filhos de Richard. O mundo, por um instante, pareceu
perder o som. Os segundos se alongaram como se fossem horas, carregados de tudo
o que nunca foi dito, de tudo o que foi vivido e de tudo o que ficou guardado
em algum lugar no fundo do coração.
Algo se moveu dentro dos dois.
Quase ao mesmo tempo, baixaram os olhos. Um
gesto instintivo, respeitoso, necessário. Entregaram os lanches aos seus filhos e seguiram à procura de uma mesa vazia.
Alguns passos adiante o destino, insistente, ofereceu-lhes
duas mesas lado a lado onde sentaram-se. As crianças escolheram as cadeiras sem
cerimônia, como só elas sabem fazer. E, como se o acaso tivesse senso de
ironia, sobraram exatamente duas cadeiras nas respectivas mesas, dispostas uma diante da outra.
Os olhares inevitavelmente se encontraram mais
algumas vezes. Breves, contidos, quase tímidos. Sempre com respeito. Sempre com
cuidado.
Os quatro filhos se observaram, sorriram entre
si, cúmplices do mesmo lanche e dos mesmos brinquedos que vinham junto.
Crianças reconhecem alegria com facilidade.
Ela olhou para os filhos dele e
sorriu. Ele olhou para os filhos dela e fez um breve aceno com a mão. A filha
dela, com a timidez doce da infância, retribuiu o gesto com um sorriso gentil.
Nada foi dito. E, ainda assim, tudo parecia
dito demais.
Ao terminarem, levantaram-se
quase juntos. Ficaram próximos o suficiente para que o passado respirasse entre
eles, mas não tanto a ponto de atravessar o limite do presente. Ele, com voz
baixa, quase como quem não quer perturbar o momento, disse:
- Seus filhos são lindos…
Elise, com um sorriso que carrega gentileza e
contenção ao mesmo tempo, respondeu no mesmo tom de voz sereno:
- Obrigada…os seus também são. Adorei conhecê-los.
Então veio a despedida. Simples. Honesta.
Necessária.
“- Tchau”, disseram um ao outro.
E
cada um seguiu seu caminho, levando consigo algo que não pesava, mas também não
se apagava. Um encontro breve e delicado, que não reacendeu promessas mas lembrou que certos amores não se perdem, mas aprendem a existir em
silêncio.