Invento Poemas
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quarta-feira, 27 de maio de 2026
terça-feira, 26 de maio de 2026
Entre o Tempo e Você - Parte VIII
Richard decidira voltar ao shopping, e chamou um
táxi. Passou o endereço ao motorista e foi acompanhando o trajeto olhando pela
janela as ruas passarem, pensando em tudo o que estava vivendo naquele dia.
Já próximo ao destino, notou que estava defronte do
endereço de sua empresa, e pediu para saltar ali. Pagou a corrida e desceu
agradecendo.
Ao entrar novamente no edifício da empresa, as
luzes piscaram abruptamente outra vez.
Tudo mergulhou na escuridão por breves segundos.
Richard sentiu novamente o mesmo vazio estranho
atravessando seu corpo, como se o tempo ao redor se dobrasse silenciosamente.
Depois, os sistemas começaram a reiniciar-se aos
poucos, acompanhados pelos bipes eletrônicos dos equipamentos.
Ao fundo, quase imperceptível no ambiente
silencioso da recepção, uma melodia clássica ecoava suavemente.
Rhapsody on a Theme of Paganini.
Richard fechou os olhos por um breve instante.
Um arrepio percorreu lentamente sua pele.
Aproximou-se da portaria.
- Boa noite, senhor Richard.
- Boa noite.
- Notei que o senhor não retornou do almoço.
Todos já saíram da empresa. As chaves do seu carro estão aqui.
Richard permaneceu estático.
- Obrigado... Só mais uma coisa. O senhor teria o
jornal de hoje?
- Claro.
O porteiro entregou-lhe o exemplar.
Richard segurou o jornal com as mãos levemente
trêmulas.
Então olhou a data:
31 de março de 2026.
Seu coração disparou.
Havia voltado.
Devolveu o jornal e subiu apressadamente até sua
sala.
Digitou a senha da fechadura eletrônica:
2303
Acendeu as luzes e encontrou tudo exatamente como
deixara horas antes.
Seu celular estava sobre a mesa e a bateria marcava
apenas cinco por cento.
- É suficiente... murmurou.
Abriu rapidamente o aplicativo de chamadas e
selecionou o contato.
Um toque.
Outro.
Mais um.
A ansiedade apertava novamente seu peito.
- Atenda... por favor...
Então a ligação foi completada.
- Oi, amor. Está tudo bem?
- Elise...
Richard fechou os olhos ao ouvir aquela voz. A mesma voz.
Depois de tudo.
- Elise... sou eu. Repetiu.
- Sim, eu sei. Está tudo bem?
Ele sorriu emocionado.
Sentiu os olhos marejarem discretamente.
- Está sim. E as crianças?
- Estamos todos bem.
Richard respirou profundamente.
Tudo dera certo.
O destino havia mudado.
E agora existia uma vida inteira construída ao
lado dela.
- Ótimo. Estou indo para casa. Em poucos minutos
chegarei para jantarmos.
- Estamos esperando você.
Houve um breve silêncio.
Então ele disse, com a voz baixa:
- Eu te amo, querida.
Do outro lado da linha, Elise sorriu antes de
responder:
- Eu também amo você, “Sr. Richard...” ela
respondeu em um tom bem humorado, em clara alusão ao dia que começaram o
namoro.
A ligação terminou.
Richard permaneceu imóvel por alguns segundos,
segurando o celular junto ao peito.
Antes de sair, Richard se lembra de um detalhe, vaculha seu armário e encontra a caixa onde deposita itens pessoais e papéis
importantes.
Dentro: a carta de três páginas que Elise escrevera em 1980, guardada em um envelope plástico que garantia a sua preservação.
Abriu cuidadosamente o envelope e releu com atenção
cada parágrafo. Mas agora havia algo diferente.
No verso da última folha está escrito:
“Se algum dia você conseguir voltar… não desista
de mim outra vez.”
Com certeza absoluta: essa frase nunca existira
antes.
Guardou tudo de volta e então apagou as luzes da
sala.
Caminhou lentamente em direção ao elevador. Dessa vez, porém, já não havia medo, apenas a silenciosa felicidade de quem finalmente havia conseguido se reencontrar com o destino.
---♡---
Entre o Tempo e Você - Parte VII
- Elise, podemos ir de táxi? Meu carro ficou na
empresa e...
- Sim, claro. Sem problema, ela respondeu
assertivamente.
Durante todo o trajeto, conversaram animadamente,
como nos tempos do Liceu, porém falavam baixo para o motorista não ouvir. De
vez em quando ele os olhava pelo retrovisor e sorria com a felicidade que eles
expressavam.
Chegaram ao destino em aproximadamente trinta
minutos, e ela combinou que iria verificar as matérias do dia, para poder sair
com ele e passar mais um tempo juntos.
Richard a aguardou na entrada, no mesmo ponto onde
havia conversado com Elise anos atrás, e ela havia contado uma notícia que
arrasou seu coração.
Ele olhou tudo pensativo.
Tudo acontecera por haver demorado apenas uma
semana.
"Se" tivesse chegado uns poucos dias
antes...
Por isso hoje ele fazia questão de não desejar
voltar.
Alguns minutos depois, ele observou Elise vindo em
sua direção. Exatamente mesma cena, no mesmo local e isso fez percorrer um
calafrio em sua espinha.
- Ri, há algo que eu preciso falar com você...
Richard ficou paralisado.
"- ah, não...!!! Não de novo???..." Ele
pensou.
- Sim, pode falar...
Seus olhos baixaram, segurando uma tristeza que o
invadiu. Estava tudo se repetindo, ela iria desistir do namoro e eles iriam
seguir suas vidas, como já havia acontecido num passado distante.
- Ri, hoje surgiu uma aula importante, talvez eu tenha
prova e não posso me ausentar, por isso não poderei ficar aqui com você hoje.
Mas amanhã eu gostaria muito de nos encontrarmos.
Uma onda de alívio e felicidades invadiu a alma de
Richard nesse momento, e ele sorriu novamente.
- Claro, amor. Claro. Faça uma boa prova e amanhã
nos encontramos e teremos muito tempo para colocar nossos assuntos em dia.
Elise concordou com um sorriso, deram um beijo de
despedida e ele se virou para ir embora.
Elise - exatamente como da outra vez - ficou
observando Richard se afastar.
De repente, ela exclamou:
- Richard!!
Ele se virou.
Elise correu em sua direção e, ao
alcançá-lo, abraçou-o fortemente antes de beijá-lo mais uma vez.
De olhos fechados, sentindo o coração acelerar, ela
sussurrou:
- Eu te amo, Ri. Fiquei muito feliz com sua
visita... com seu pedido... Nunca se esqueça disso nem do que lhe escrevi.
Richard acariciou o rosto dela.
- Amo você desde o instante em que a vi pela
primeira vez, Elise. Eu não poderia deixar este dia terminar sem lhe dizer
isso.
Trocaram mais um beijo.
Então foram lentamente soltando as mãos, até que os
dedos já não conseguiram mais permanecer unidos.
Elise voltou para a sala de aula.
Richard permaneceu imóvel por alguns segundos,
observando-a se afastar.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, seu coração
estava em paz.
Entre o Tempo e Você - Parte VI
Richard sorria leve, por haver finalmente declarado seu amor à ela.
- Eu queria trazer um flores para você, mas não
encontrei nenhuma floricultura por aqui...
- Ri, não é preciso...
Os olhos dela expressaram um sentimento recíproco.
Richard se aproximou e eles se beijaram, sorrindo, tímidos
mas muito felizes.
- Eu aceito, “Sr.” Richard, disse Elise.
Richard acariciou os cabelos dela, sem conseguir
desviar os olhos daquele olhar encantador.
- Estou muito feliz, “Sra” Elise.
- Agora por favor, me conte sobre a tal formatura
sua. Eu não entendi o que quiz dizer.
Sem conseguir disfarçar o nervosismo, ele explica,
evasivamente:
- Eu acho que sonhei com a minha formatura do
Liceu, e você não estava comigo no momento da diplomação. Tiraram fotos e eu
lhe mostrava, dizendo que aquele lugar ao meu lado pertencia a você.
- Que sonho estranho...
- Alguns são mesmo, Elise. Mas este que estamos
vivendo agora é real: eu e você, namorando.
Elise sorriu e novamente se beijaram discretamente.
Conversaram bastante depois que ela almoçou.
Falaram sobre planos para o final de semana e
combinaram que ele a acompanharia para sua escola naquela noite. Ele poderia
entrar e conhecer seu colégio, e quem sabe até cursarem juntos os dois anos que
restavam para sua graduação.
Richard mal se continha de felicidade.
Voltaram ao edifício onde ela trabalhava e se
despediram com outro beijo.
Faltavam ainda três horas para o fim do expediente
de Elise e Richard decidiu esperá-la no shopping, aproveitando para revisitar
as lojas, a moda e os objetos daquele tempo.
Entrou em uma loja de discos e permaneceu ali por
longos minutos, observando atentamente os LPs expostos. Alguns daqueles álbuns
ainda faziam parte de sua coleção décadas depois.
Enquanto lia as faixas e fichas técnicas dos
discos, não conseguia deixar de pensar em Elise e na sensação quase irreal de
finalmente estarem juntos como namorados, realizando um sonho interrompido pelo
destino.
Mas agora havia também outra sensação crescendo
silenciosamente dentro dele.
Medo.
Richard observava tudo ao redor tentando
compreender as consequências daquilo.
“E se eu alterar alguma coisa?”
“E se nada disso devesse acontecer?”
Pela primeira vez desde o encontro, sentiu um calafrio atravessar-lhe o corpo.
Ainda assim, bastava lembrar-se do sorriso de Elise
para que todas aquelas dúvidas perdessem força.
Richard já compreendia o que havia acontecido desde
o estranho apagão no elevador.
Não cogitou retornar ao trabalho.
Precisava viver aquilo.
Precisava consolidar aquela nova linha do tempo
que, de alguma forma inexplicável, lhes fora concedida.
E desejava intensamente fazê-lo, por isso
comprometeu-se consigo a acompanhá-la até a escola naquela noite. Depois
deixaria a vida os conduzir.
Às dezessete horas, pontualmente, estava diante do
edifício aguardando Elise.
A ansiedade desapareceu no instante em que a viu
sair do elevador.
Sorriu ao contemplar seus passos delicados vindo em
sua direção, acompanhados daquele sorriso que apenas ela sabia oferecer e que
era capaz de preencher seu coração de felicidade.
Naquele instante, sentiu novamente as antigas
borboletas no estômago.
Cumprimentaram-se com um beijo apaixonado e saíram
do prédio em direção à avenida.
Richard se deu conta, então, de que seu carro havia
ficado no estacionamento da empresa, na outra janela do tempo.
A percepção o atingiu de maneira abrupta.
Parou por um instante na calçada, observando as
próprias mãos. Tremiam discretamente.
Richard fechou os dedos devagar, tentando controlar
a ansiedade crescente que percorria seu corpo. Respirou fundo, mas o ar parecia
insuficiente. Uma sensação estranha de irrealidade continuava pressionando sua
mente, como se a qualquer momento ele pudesse despertar daquele cenário.
Olhou ao redor.
Os carros antigos cruzavam lentamente a avenida
iluminada pelos letreiros da época. Pessoas caminhavam usando roupas típicas do
início dos anos oitenta. O brilho das vitrines refletia-se nos vidros dos
edifícios enquanto a cidade pulsava viva ao redor deles.
Tudo parecia real demais.
Richard passou os dedos sobre a lataria de um táxi
estacionado próximo dali. Sentiu o metal frio sob a palma da mão, a pequena
irregularidade da pintura, o cheiro característico de gasolina misturado ao ar
úmido da avenida.
Se fosse um sonho, era o mais perfeito e intrigante
que já tivera.
Por um breve instante, o medo atravessou seu peito.
“E se eu estiver delirando?”
A ideia surgiu seca em sua mente.
Talvez tudo aquilo tudo fosse apenas uma construção
desesperada de sua memória.
Mas então Elise apertou suavemente sua mão,
trazendo-o de volta ao presente, ou ao passado...
Richard voltou os olhos para ela.
E imediatamente todas as dúvidas perderam força.
Ainda assim, outra inquietação começou a crescer
silenciosamente dentro dele.
“E se eu mudar alguma coisa?”
Seu coração acelerou novamente.
Porque, pela primeira vez desde que a encontrara,
compreendeu verdadeiramente a dimensão daquilo que estava vivendo.
Talvez pudesse voltar. Talvez não.
E, naquele instante, Richard percebeu algo ainda
mais sério: não tinha certeza se desejava mesmo retornar...
Entre o Tempo e Você - Parte V
Por alguns segundos, sua mente simplesmente se
recusou a aceitar o que estava vendo.
Richard permaneceu imóvel.
O ruído das máquinas de escrever ao redor pareceu
tornar-se distante.
O ar lhe faltou brevemente.
Não, aquilo não era possível. Não podia ser....
Seus olhos voltaram à data mais uma vez.
Um frio percorreu lentamente sua espinha.
A revista ainda mantinha o cheiro característico de
revista nova. Uma grande interrogação pairava sobre ele.
- A minha formatura do Liceu, Elise. Daquela foto
que lhe mostrei recebendo o diploma.
- Heim? Que diploma? Não estou entendendo nada,
Richard. Vamos fazer o seguinte, eu vou sair para almoçar agora, você me
acompanha e assim podermos conversar melhor.
- Sim, claro, claro.
Elise fechou uma pasta que estava sobre a sua mesa
e levantaram-se para sair.
Quando estavam se dirigindo para a saída, Elise foi
parada por uma pessoa que Richard entendeu ser a Coordenadora do setor.
- Olá Elise.
- Camile, este é o Richard. Richard essa é Camile,
Coordenadora de Operações.
Cumprimentaram-se e ela disse:
- Elise, não fala muito, mas seus olhos sempre
brilham quando fala sobre vocês. Muito prazer.
- Igualmente, ele respondeu sorrindo.
Foram para elevador e ficaram em silêncio até
chegar ao térreo, e ele foi devolver a credencial para a recepcionista.
Nesse instante, percebeu que estavam em uma
recepção bem diferente da que ele havia passado minutos antes. Elise lhe contou
que não havia recepcionistas ali e que o acesso era direto sem precisar
autorização.
Nesse momento, ele prestou atenção à música
ambiente. Era a lindíssima Rhapsody On A Theme Of Paganini de Rachmaninoff.
Richard buscou no bolso do terno a credencial que
tinha recebido, sem a encontrar e então veio a sua mente aquele apagar das
luzes do elevador e tudo ficou claro em sua mente.
Inacreditavelmente ele parecia te voltado à 1980.
Seguiram em direção à rua, quando enfim se deram as mãos. Ele olhava o
movimento da avenida quando passou por eles um Opala prateado. Levantou a
cabeça e viu que todos os veículos eram "antigos", também da época de
1980.
- Elise... que dia é hoje?
Ela sorriu, intrigada.
- Quarta-feira.
- Não... o dia. O ano...
Elise franziu levemente a testa.
- 31 de março de 1980.
O mundo pareceu silenciar ao redor de Richard. Os
ruídos da avenida tornaram-se abafados.
Ele sentiu o coração pulsar violentamente no peito
e sua respiração falhou.
Richard olhou novamente os carros, as roupas das
pessoas, os letreiros, os ônibus atravessando a avenida.
Tudo, absolutamente tudo.
Um tremor percorreu suas mãos.
Aquilo era impossível. Inconcebível.
E, ainda assim...
Elise estava ali, segurando sua mão.
Real, dentro daquele passado que ele acreditava
perdido para sempre.
Nesse momento Richard foi tomado por uma explosão
de sentimentos com a compreensão do que estava acontecendo, e pensou: aquele
filme era verdade, é possível!
E apertou levemente a mão de Elise, buscando a
certeza de que aquilo era real. E, se por acaso estivesse sonhando, desejava
apenas que o sonho não terminasse antes de descobrir como aquele reencontro
acabaria. Ainda assim, havia uma convicção absoluta dentro dele: precisava
conversar com ela naquele dia, custasse o que custasse.
Caminharam poucos metros até o mesmo shopping onde
Richard havia almoçado minutos antes. Enquanto seguiam lado a lado, Elise
comentava distraidamente sobre as aulas daquela noite, confessando não gostar
particularmente de uma das matérias. Richard sorria de vez em quando, mas sua
mente estava distante demais para conseguir desenvolver qualquer comentário.
Por dentro, sentia-se atravessado por uma inquietação quase impossível de
controlar.
Sentaram-se à mesa do Restaurante Viena, o
preferido dela. Elise pegou o cardápio, mas Richard pediu apenas uma garrafa de
água. Suas mãos transpiravam discretamente, e ele precisou respirar fundo antes
de retomar a conversa.
- Elise... eu havia marcado com você para
encontrá-la em seu colégio, lembra?
Ela sorriu imediatamente.
- Claro que lembro, Ri. Eu disse que estava ansiosa
para vê-lo. Foi por isso que lhe mandei aquela carta... Foram três páginas
escritas de madrugada.
Richard abaixou os olhos por um instante, tomado
pela emoção silenciosa daquela lembrança.
- Sim... eu me lembro dessa carta. Guardei ela
todos esses anos.
Elise o observou com certa estranheza. Algumas
respostas de Richard pareciam carregadas de um peso emocional que ela não
conseguia compreender completamente. Ainda assim, atribuiu aquilo à timidez
dele, ou ao nervosismo daquele reencontro tão esperado, e sorriu novamente,
agora de maneira mais doce e delicada.
- Então eu gostaria de lhe dizer algo. Eu preciso,
na verdade.
- Então diga...
- Elise... eu esperei muitos anos para dizer isso.”
Ela sorriu sem entender.
Richard respirou fundo.
- Talvez mais anos do que você possa imaginar... um
longo tempo se passou desde aquele nosso encontro na praça, eu quiz tanto
beijar você...
- Eu também.
Richard segurou as mãos de Elise. Estavam sentados
lado a lado.
- Elise, eu te amo! Quer ser minha namorada?
Entre o Tempo e Você - Parte IV
Richard tomou a iniciativa.
Tudo bem? Eu estava aqui pelas imediações e... não
resisti à vontade de conhecer o lugar onde você trabalhava quando nos
conhecemos...
Elise franziu levemente a testa.
- Trabalhava? Mas eu trabalho aqui até hoje, Ri
Ao ouvi-la chamá-lo daquela forma, exatamente como
nos tempos do Liceu, seu coração disparou.
- Ah sim... claro... verdade.
Tentou sorrir.
- Resolvi passar aqui para dar um “oi”. Como você
está?
- Richard... está tudo bem com você? Nós conversamos semana retrasada. Inclusive,
combinamos de nos encontrar esta semana. Eu estava ansiosa para vê-lo.
- Não, claro que não me esqueci...
Richard sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Eles não se viam havia décadas.
Mas ali estava Elise.
Linda, exatamente como na época em que haviam
marcado o encontro em que ele pretendia pedi-la em namoro.
E aquilo havia acontecido em 1980, ele tinha
certeza, por haver sido no ano seguinte ao que se conheceram e se apaixonaram.
- E Richard... como você está elegante nesse terno,
estou encantada.
Ele não conseguia compreender o que estava
acontecendo.
Elise carregava consigo aquela combinação rara de
juventude e elegância natural que parecia pertencer às fotografias editoriais
do início da década de 1980. Sua presença não chamava atenção pelo exagero, mas
pela delicadeza refinada dos detalhes de beleza suave, feminina e absolutamente
memorável. Os cabelos loiros, de tom dourado-claro, caíam até a altura dos
ombros em um corte cuidadosamente alinhado com penteado moldado com escova
suave e leves ondas nas pontas, criando movimento e sofisticação. Sua franja,
discretamente lateral, emoldurava o rosto com naturalidade, enquanto alguns
fios iluminados refletiam a luz de maneira quase cinematográfica.
Seu rosto mantinha traços harmoniosos e serenos. A
pele clara e bem cuidada possuía um brilho delicado, realçado apenas por uma
maquiagem leve e extremamente feminina. O batom, em tom discreto de rosa
queimado ou nude rosado, desenhava os lábios com suavidade, transmitindo uma
sensação de doçura e maturidade ao mesmo tempo.
Ela usava um perfume leve, quase sutil demais para
ser percebido de imediato. Uma fragrância delicada que parecia acompanhá-la de
forma discreta, como uma extensão natural de sua presença.
A roupa social refletia perfeitamente o seu
refinamento. Um tailleur elegante em tons claros talvez bege, com ombros
levemente estruturados, cintura marcada e tecido impecavelmente alinhado ao
corpo. A blusa de seda por baixo possuía caimento leve e gola delicada.
Pequenos acessórios dourados completavam o visual:
brincos discretos, um relógio fino no pulso e um colar delicado repousando
junto à clavícula.
Havia nela uma feminilidade clássica, que a tornava
ainda mais linda. Seu sorriso surgia contido e gentil, revelando educação,
serenidade e certa timidez encantadora, como alguém que não precisava
esforçar-se para parecer bonita. Elise estava simplesmente encantadora.
Richard por sua vez sequer conseguiu articular uma
frase, apenas fitava aqueles olhos castanho claros como se estivesse
hipnotizado.
- Entre, venha até minha mesa, ali conversamos
melhor. E caminhou à frente dele que a seguiu com passos tímidos, sendo novamente
observado pelas colegas dela que os seguiam com os olhos e sorrindo levemente.
Ele conseguiu ouvir uma delas sussurrar que realmente formavam um belo par.
Elise apontou uma cadeira enquanto se sentava, e a
ofereceu para Richard se assentar, dizendo:
- Enfim, aqui é meu trabalho, tenho uma bela vista
da região e é daqui que eu tenho a possibilidade de contemplar o pôr-do-sol que
lhe contava no Liceu. As vezes sinto falta de nossas conversas. Onde estou
agora não tenho ninguém com quem conversar antes das aulas.
- Eu também sinto muito a sua falta. Também não
tinha ninguém para conversar e a formatura foi marcada pela sua ausência.
- Que formatura, Ri???
Ambos pareciam não compreender o
que estava acontecendo, e ele que não conseguia desviar o olhar de Elise. Foi
então que seus olhos pararam sobre um exemplar da Revista Manchete repousando
na mesa.
Richard inclinou-se lentamente.
Sentiu os dedos esfriarem e seu coração começou a
bater mais forte.
Pegou a revista com cuidado quase involuntário.
A edição trazia estampada a data:
31 de março de 1980.
Entre o Tempo e Você - Parte III
Ao sair, logo avistou a mesa da secretária e foi em sua direção.
Foi então que notou algo incomum.
A decoração daquele andar era completamente diferente da recepção moderna que havia visto no térreo. Nada de linhas modernas.
Richard diminuiu involuntariamente o passo.
Seu olhar percorreu os móveis, os telefones, os arquivos metálicos, os detalhes da decoração.
Tudo remetia aos anos oitenta e impecavelmente preservado no tempo, não como um ambiente reformado em estilo retrô, mas genuinamente pertencente a outra época.
Uma sensação estranha apertou lentamente seu peito.
Sua respiração ficou curta.
Richard tentou convencer a si mesmo de que havia alguma explicação lógica para aquilo, embora, no fundo, começasse a sentir um medo silencioso crescendo dentro de si.
- Bom dia, meu nome é Richard, estendendo a credencial para a secretária.
- Bom dia, seja bem-vindo. Elise trabalha na sala 2303, neste mesmo corredor. Pode seguir. É a terceira porta à direita.
Richard arregalou os olhos.
- Sala... 2303???
- Sim.
A cada passo, sua ansiedade aumentava.
Intrigado, Richard agradeceu com um sorriso e seguiu em direção à sala.
A cada passo, sua ansiedade aumentava, agora mais ainda pela tremenda coincidência que o estimulou a desvendar.
Nas salas ao lado, funcionários trabalhavam em máquinas de escrever IBM. O ruído metálico das esferas tipográficas preenchia o ambiente com um som familiar e nostálgico.
Impossível não reconhecer.
No corredor, uma mulher elegantemente vestida passou por ele. Seu visual clássico parecia retirado diretamente do início da década de oitenta.
Richard observava tudo cada vez mais impressionado.
Apressou os passos.
Em instantes estava diante da sala 2303.
A porta encontrava-se entreaberta.
Ele ajeitou a gravata, olhou se estava tudo ok, respirou fundo e com um leve bater, esperou alguns segundos que lhe pareceram horas, e com as mãos suando, entreabriu a porta e olhou para o interior tentando encontrar alguém para recebê-lo.
No mesmo instante, alguém do lado de dentro fez o mesmo movimento.
As portas se abriram juntas
Richard empalideceu.
- Elise...?!
- Richard...
Disseram ao mesmo tempo, olhando-se fixamente, sem conseguir desviar os olhos.
As colegas de trabalho sorriram presenciando a surpresa evidente de ambos, que por alguns segundos não conseguiram pronunciar palavra alguma.
Os olhares já diziam tudo por eles.





