segunda-feira, 25 de maio de 2026

Entre o Tempo e Você - Parte II

 


Um leve tremor percorreu seu corpo quando avistou, no letreiro do 23º andar, a logomarca do banco e uma placa indicando o Centro de Operações Financeiras. Richard havia encontrado seu destino. 

Sorriu discretamente diante da coincidência do número.

- Só falta a sala ser a 2303...  pensou, contendo o nervosismo.

Dirigiu-se à recepção para se identificar e tentar acesso.

- Bom dia, por favor eu gostaria de ir ao Centro de Operações no 23° andar ...

- Pois não, respondeu a atendente solícita. Com quem deseja falar?

Um frio percorreu o corpo de Richard diante da incerteza de conseguir entrar. Ainda assim, sorriu levemente ao perceber a própria loucura naquela tentativa improvável.

- Elise... disse à recepcionista. O nome dela é Elise.

Apresentou seu documento de identificação.

- Certo, Elise, 23° andar...

A recepcionista digitou os dados e fez uma chamada no ramal interno.

- Senhor Richard está aqui na recepção e deseja falar com Elise...

Pausa.

- Ok, obrigada

Ela desligou.

- Aqui está sua credencial, Sr. Richard, pode subir. Ao chegar, apresente-a para a secretária do setor e ela e ela o encaminhará. Elise já está aguardando o senhor. Seja bem-vindo e tenha uma ótima reunião.

Richard não compreendeu nada, apenas agradeceu com um aceno enquanto pensava:

"Será que fui confundido com outra pessoa? Que coincidência absurda... alguém com o mesmo nome, justamente me aguardando?"

Dirigiu-se ao elevador, que já estava no térreo, e pressionou o botão do 23º andar.

Nervoso, afrouxou discretamente o nó da gravata e colocou as mãos nos bolsos durante a longa subida.

Segundos antes de as portas se abrirem, as luzes do elevador piscaram abruptamente.

Um estalo seco ecoou acima do forro metálico.

Então tudo mergulhou na escuridão.

Richard sentiu o corpo perder momentaneamente a referência de equilíbrio,  fazendo também sentir o estômago afundar violentamente, como se o elevador tivesse atravessado um vazio invisível, e uma vertigem súbita fez com que levasse a mão à parede espelhada para se apoiar e recuperar a noção de espaço e de ar para respirar.

O silêncio durou menos de um segundo.

Mas pareceu muito mais.

As luzes voltaram em uma tonalidade estranhamente amarelada e fraca, diferentes da iluminação branca e moderna de antes.

Richard respirou fundo, tentando controlar a sensação desconfortável que percorria seu peito.

Um arrepio subiu lentamente por sua nuca.

Por algum motivo inexplicável, teve a impressão de que algo ao redor havia mudado.

Não apenas no elevador.

Em tudo.


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