Havia algo diferente naquele fim de tarde. Era uma espécie de inquietação doce, dessas que fazem o relógio parecer lento demais e o pensamento insistir em uma única pessoa.
Richard passou o dia inteiro tentando se concentrar nas obrigações, mas Elise surgia em sua mente entre uma tarefa e outra. Às vezes no reflexo escuro da tela do notebook, às vezes numa pausa breve para o café. Via o contorno do rosto dela, o brilho sereno dos olhos, o jeito delicado com que sorria quando ele chegava em casa cansado demais para conversar.
Estava apressado para encontrar Elise. Por alguma razão desconhecida, ele havia pensado nela o dia todo.
Trocaram poucas mensagens curtas pelo telefone, mas ainda assim os pensamentos não cessaram.
Ele praticamente via seu rosto, seu olhar, seu sorriso e ansiava por chegar logo em casa, pois era o momento do dia só deles, tanto nas pequenas tarefas quanto à mesa do jantar, quando conversam amenidades que os fazem felizes. Após o jantar sempre têm um tempo sentados no sofá da sala, com sua cachorrinha aos seus pés fazendo companhia.
Talvez fosse esse desejo que lhe incendiava o pensamento, desejando que as horas passassem rapidamente para esse deleite.
Assim, apressou suas rotinas e acelerou o que pôde. Respondeu os últimos e-mails quase mecanicamente, fechou o notebook e decidiu abandonar para o dia seguinte tudo aquilo que não fosse essencial.
Naquela noite, nada parecia mais importante do que Elise.
Apagou as luzes da sala e seguiu apressado para a garagem do edifício.
Apagou as luzes e saiu apressadamente para a garagem do edifício.
No caminho, fez uma breve parada em uma floricultura e escolheu um buque de rosas Déjà Vu conhecida por ter uma coloração amarela com uma fina borda avermelhada, criando um efeito "bicolor" ou "multicolorido" que simbolizam alegria, amizade e energia, enquanto o toque vermelho-laranja adiciona um sentido de entusiasmo e desejo.
De volta ao carro, escolheu uma playlist tranquila para tentar diminuir a ansiedade que crescia dentro do peito.
E foi então que percebeu detalhes que normalmente lhe escapavam: aquela árvore frondosa da avenida e os detalhes daquela casa bem ao estilo dos anos 70, impecavelmente bem conservada.
Conseguiu também ver um cachorrinho sentado ao portão, talvez esperando seu tutor chegar. Era um Shih-Tzu igual ao deles, de pelagem mesclada de branco e café com leite. Seus olhos se encontraram naquela fração de segundos.Richard teve a impressão de que ele compreendia exatamente aquele sentimento de espera e sorriu sozinho antes de virar a esquina.
Essas pequenas distrações ajudaram-lhe a chegar logo em casa.
Abriu a porta, ainda com uma inexplicável ansiedade e percorreu o ambiente à procura de Elise.
A iluminação suave do entardecer permitiu encontrá-la no sofá, lendo um livro. Elise também havia chegado em casa com alguma antecedência.
Ela se levantou com um sorriso e caminhou até ele, e se abraçaram. Ela passou os braços por seu pescoço e ele a segurou pela cintura.
Ele entregou o buquê de rosas que fizeram seus olhos brilharem.
- São as minhas favoritas… disse quase num sussurro.
- Chegou mais cedo, quase estragou a minha surpresa, sussurrou ela.
- Surpresa?
Ao que levantou os olhos e viu a mesa lindamente preparada, para um jantar à luz de velas, acompanhado de seu vinho favorito, já descansando sobre a mesa.
- Alguma ocasião especial? perguntou Richard.
Elise respondeu:
- Agora você terá mais uma data para comemorar comigo, dentre tantas que você adora guardar...
disse ela sorrindo.
Richard franziu levemente a testa, divertido.
- Que data, minha querida? Estou curioso.
- Tome seu banho e desça para jantarmos, aí eu lhe conto.
Richard não hesitou.
Trocaram um beijo lento e suave antes que ele subisse as escadas.
Enquanto caminhava até o quarto, Richard percebeu algo com absoluta clareza: estava completamente perdido de amor por ela, pela forma como ela o fazia feliz e completo e pela maneira como transformava coisas simples em memórias eternas.
Cerca de meia-hora depois Richard desceu e já encontrou a mesa posta, tudo organizado com o bom gosto característico de Elise. O aroma inundava a sala.
Ela havia preparado seu prato favorito, que harmonizará perfeitamente com aquele Cabernet Sauvignon que guardaram para uma ocasião especial.
Richard puxou a cadeira e ajeitou para Elise se sentar, e se dirigiu para seu lugar.
Foi então que percebeu um pequeno cartão repousando sobre o prato, decorado à mão.
A letra era dela.
Ele abriu lentamente e leu os dizeres:
- Bom apetite, papai.
Richard ficou parado por alguns segundos, para assimilar aquela mensagem, e levantou os olhos.
Elise sorria o sorriso mais encantador que ele jamais havia visto. Era diferente. Ela sempre sorria, é claro, mas naquele momento, ela resplandecia.
Os abraços e os beijos vieram misturados ao riso nervoso, às lágrimas contidas e à incredulidade feliz daquele instante.
Então Richard encostou os lábios próximos ao ouvido dela e sussurrou, emocionado:
- Mamãe Elise...
(Um momento imaginário de uma saudade que não tem lembrança).

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