terça-feira, 26 de maio de 2026

Entre o Tempo e Você - Parte VIII

 

Richard decidira voltar ao shopping, e chamou um táxi. Passou o endereço ao motorista e foi acompanhando o trajeto olhando pela janela as ruas passarem, pensando em tudo o que estava vivendo naquele dia.

Já próximo ao destino, notou que estava defronte do endereço de sua empresa, e pediu para saltar ali. Pagou a corrida e desceu agradecendo.

Ao entrar novamente no edifício da empresa, as luzes piscaram abruptamente outra vez.

Tudo mergulhou na escuridão por breves segundos.

Richard sentiu novamente o mesmo vazio estranho atravessando seu corpo, como se o tempo ao redor se dobrasse silenciosamente.

Depois, os sistemas começaram a reiniciar-se aos poucos, acompanhados pelos bipes eletrônicos dos equipamentos.

Ao fundo, quase imperceptível no ambiente silencioso da recepção, uma melodia clássica ecoava suavemente.

Rhapsody on a Theme of Paganini.

Richard fechou os olhos por um breve instante.

Um arrepio percorreu lentamente sua pele.

Aproximou-se da portaria.

- Boa noite, senhor Richard.

- Boa noite.

- Notei que o senhor não retornou do almoço. Todos já saíram da empresa. As chaves do seu carro estão aqui.

Richard permaneceu estático.

- Obrigado... Só mais uma coisa. O senhor teria o jornal de hoje?

- Claro.

O porteiro entregou-lhe o exemplar.

Richard segurou o jornal com as mãos levemente trêmulas.

Então olhou a data:

31 de março de 2026.

Seu coração disparou.

Havia voltado.

Devolveu o jornal e subiu apressadamente até sua sala.

Digitou a senha da fechadura eletrônica:

2303

Acendeu as luzes e encontrou tudo exatamente como deixara horas antes.

Seu celular estava sobre a mesa e a bateria marcava apenas cinco por cento.

- É suficiente... murmurou.

Abriu rapidamente o aplicativo de chamadas e selecionou o contato.

Um toque.

Outro.

Mais um.

A ansiedade apertava novamente seu peito.

- Atenda... por favor...

Então a ligação foi completada.

- Oi, amor. Está tudo bem?

- Elise...

Richard fechou os olhos ao ouvir aquela voz. A mesma voz.

Depois de tudo.

- Elise... sou eu. Repetiu.

- Sim, eu sei. Está tudo bem?

Ele sorriu emocionado.

Sentiu os olhos marejarem discretamente.

- Está sim. E as crianças?

- Estamos todos bem.

Richard respirou profundamente.

Tudo dera certo.

O destino havia mudado.

E agora existia uma vida inteira construída ao lado dela.

- Ótimo. Estou indo para casa. Em poucos minutos chegarei para jantarmos.

- Estamos esperando você.

Houve um breve silêncio.

Então ele disse, com a voz baixa:

- Eu te amo, querida.

Do outro lado da linha, Elise sorriu antes de responder:

- Eu também amo você, “Sr. Richard...” ela respondeu em um tom bem humorado, em clara alusão ao dia que começaram o namoro.

A ligação terminou.

Richard permaneceu imóvel por alguns segundos, segurando o celular junto ao peito.

Antes de sair, Richard se lembra de um detalhe, vaculha seu armário e encontra a caixa onde deposita itens pessoais e papéis importantes.

Dentro: a carta de três páginas que Elise escrevera em 1980, guardada em um envelope plástico que garantia a sua preservação.

Abriu cuidadosamente o envelope e releu com atenção cada parágrafo. Mas agora havia algo diferente.

No verso da última folha está escrito:

Se algum dia você conseguir voltar… não desista de mim outra vez.”

Com certeza absoluta: essa frase nunca existira antes.

Guardou tudo de volta e então apagou as luzes da sala.

Caminhou lentamente em direção ao elevador. Dessa vez, porém, já não havia medo, apenas a silenciosa felicidade de quem finalmente havia conseguido se reencontrar com o destino.

---♡---

Dedicada ao amor pelo qual valeu a vida esperar para reencontrar...



22/05/2026

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