Richard tomou a iniciativa.
Tudo bem? Eu estava aqui pelas imediações e... não
resisti à vontade de conhecer o lugar onde você trabalhava quando nos
conhecemos...
Elise franziu levemente a testa.
- Trabalhava? Mas eu trabalho aqui até hoje, Ri
Ao ouvi-la chamá-lo daquela forma, exatamente como
nos tempos do Liceu, seu coração disparou.
- Ah sim... claro... verdade.
Tentou sorrir.
- Resolvi passar aqui para dar um “oi”. Como você
está?
- Richard... está tudo bem com você? Nós conversamos semana retrasada. Inclusive,
combinamos de nos encontrar esta semana. Eu estava ansiosa para vê-lo.
- Não, claro que não me esqueci...
Richard sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Eles não se viam havia décadas.
Mas ali estava Elise.
Linda, exatamente como na época em que haviam
marcado o encontro em que ele pretendia pedi-la em namoro.
E aquilo havia acontecido em 1980, ele tinha
certeza, por haver sido no ano seguinte ao que se conheceram e se apaixonaram.
- E Richard... como você está elegante nesse terno,
estou encantada.
Ele não conseguia compreender o que estava
acontecendo.
Elise carregava consigo aquela combinação rara de
juventude e elegância natural que parecia pertencer às fotografias editoriais
do início da década de 1980. Sua presença não chamava atenção pelo exagero, mas
pela delicadeza refinada dos detalhes de beleza suave, feminina e absolutamente
memorável. Os cabelos loiros, de tom dourado-claro, caíam até a altura dos
ombros em um corte cuidadosamente alinhado com penteado moldado com escova
suave e leves ondas nas pontas, criando movimento e sofisticação. Sua franja,
discretamente lateral, emoldurava o rosto com naturalidade, enquanto alguns
fios iluminados refletiam a luz de maneira quase cinematográfica.
Seu rosto mantinha traços harmoniosos e serenos. A
pele clara e bem cuidada possuía um brilho delicado, realçado apenas por uma
maquiagem leve e extremamente feminina. O batom, em tom discreto de rosa
queimado ou nude rosado, desenhava os lábios com suavidade, transmitindo uma
sensação de doçura e maturidade ao mesmo tempo.
Ela usava um perfume leve, quase sutil demais para
ser percebido de imediato. Uma fragrância delicada que parecia acompanhá-la de
forma discreta, como uma extensão natural de sua presença.
A roupa social refletia perfeitamente o seu
refinamento. Um tailleur elegante em tons claros talvez bege, com ombros
levemente estruturados, cintura marcada e tecido impecavelmente alinhado ao
corpo. A blusa de seda por baixo possuía caimento leve e gola delicada.
Pequenos acessórios dourados completavam o visual:
brincos discretos, um relógio fino no pulso e um colar delicado repousando
junto à clavícula.
Havia nela uma feminilidade clássica, que a tornava
ainda mais linda. Seu sorriso surgia contido e gentil, revelando educação,
serenidade e certa timidez encantadora, como alguém que não precisava
esforçar-se para parecer bonita. Elise estava simplesmente encantadora.
Richard por sua vez sequer conseguiu articular uma
frase, apenas fitava aqueles olhos castanho claros como se estivesse
hipnotizado.
- Entre, venha até minha mesa, ali conversamos
melhor. E caminhou à frente dele que a seguiu com passos tímidos, sendo novamente
observado pelas colegas dela que os seguiam com os olhos e sorrindo levemente.
Ele conseguiu ouvir uma delas sussurrar que realmente formavam um belo par.
Elise apontou uma cadeira enquanto se sentava, e a
ofereceu para Richard se assentar, dizendo:
- Enfim, aqui é meu trabalho, tenho uma bela vista
da região e é daqui que eu tenho a possibilidade de contemplar o pôr-do-sol que
lhe contava no Liceu. As vezes sinto falta de nossas conversas. Onde estou
agora não tenho ninguém com quem conversar antes das aulas.
- Eu também sinto muito a sua falta. Também não
tinha ninguém para conversar e a formatura foi marcada pela sua ausência.
- Que formatura, Ri???
Ambos pareciam não compreender o
que estava acontecendo, e ele que não conseguia desviar o olhar de Elise. Foi
então que seus olhos pararam sobre um exemplar da Revista Manchete repousando
na mesa.
Richard inclinou-se lentamente.
Sentiu os dedos esfriarem e seu coração começou a
bater mais forte.
Pegou a revista com cuidado quase involuntário.
A edição trazia estampada a data:
31 de março de 1980.

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