terça-feira, 26 de maio de 2026

Entre o Tempo e Você - Parte IV


Richard tomou a iniciativa.

Tudo bem? Eu estava aqui pelas imediações e... não resisti à vontade de conhecer o lugar onde você trabalhava quando nos conhecemos...

Elise franziu levemente a testa.

- Trabalhava? Mas eu trabalho aqui até hoje, Ri

Ao ouvi-la chamá-lo daquela forma, exatamente como nos tempos do Liceu, seu coração disparou.

- Ah sim... claro... verdade.

Tentou sorrir.

- Resolvi passar aqui para dar um “oi”. Como você está?

- Richard... está tudo bem com você?  Nós conversamos semana retrasada. Inclusive, combinamos de nos encontrar esta semana. Eu estava ansiosa para vê-lo.

- Não, claro que não me esqueci...

Richard sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

Eles não se viam havia décadas.

Mas ali estava Elise.

Linda, exatamente como na época em que haviam marcado o encontro em que ele pretendia pedi-la em namoro.

E aquilo havia acontecido em 1980, ele tinha certeza, por haver sido no ano seguinte ao que se conheceram e se apaixonaram.

- E Richard... como você está elegante nesse terno, estou encantada.

Ele não conseguia compreender o que estava acontecendo.

Elise carregava consigo aquela combinação rara de juventude e elegância natural que parecia pertencer às fotografias editoriais do início da década de 1980. Sua presença não chamava atenção pelo exagero, mas pela delicadeza refinada dos detalhes de beleza suave, feminina e absolutamente memorável. Os cabelos loiros, de tom dourado-claro, caíam até a altura dos ombros em um corte cuidadosamente alinhado com penteado moldado com escova suave e leves ondas nas pontas, criando movimento e sofisticação. Sua franja, discretamente lateral, emoldurava o rosto com naturalidade, enquanto alguns fios iluminados refletiam a luz de maneira quase cinematográfica.

Seu rosto mantinha traços harmoniosos e serenos. A pele clara e bem cuidada possuía um brilho delicado, realçado apenas por uma maquiagem leve e extremamente feminina. O batom, em tom discreto de rosa queimado ou nude rosado, desenhava os lábios com suavidade, transmitindo uma sensação de doçura e maturidade ao mesmo tempo.

Ela usava um perfume leve, quase sutil demais para ser percebido de imediato. Uma fragrância delicada que parecia acompanhá-la de forma discreta, como uma extensão natural de sua presença.

A roupa social refletia perfeitamente o seu refinamento. Um tailleur elegante em tons claros talvez bege, com ombros levemente estruturados, cintura marcada e tecido impecavelmente alinhado ao corpo. A blusa de seda por baixo possuía caimento leve e gola delicada.

Pequenos acessórios dourados completavam o visual: brincos discretos, um relógio fino no pulso e um colar delicado repousando junto à clavícula.

Havia nela uma feminilidade clássica, que a tornava ainda mais linda. Seu sorriso surgia contido e gentil, revelando educação, serenidade e certa timidez encantadora, como alguém que não precisava esforçar-se para parecer bonita. Elise estava simplesmente encantadora.

Richard por sua vez sequer conseguiu articular uma frase, apenas fitava aqueles olhos castanho claros como se estivesse hipnotizado.

- Entre, venha até minha mesa, ali conversamos melhor. E caminhou à frente dele que a seguiu com passos tímidos, sendo novamente observado pelas colegas dela que os seguiam com os olhos e sorrindo levemente. Ele conseguiu ouvir uma delas sussurrar que realmente formavam um belo par.

Elise apontou uma cadeira enquanto se sentava, e a ofereceu para Richard se assentar, dizendo:

- Enfim, aqui é meu trabalho, tenho uma bela vista da região e é daqui que eu tenho a possibilidade de contemplar o pôr-do-sol que lhe contava no Liceu. As vezes sinto falta de nossas conversas. Onde estou agora não tenho ninguém com quem conversar antes das aulas.

- Eu também sinto muito a sua falta. Também não tinha ninguém para conversar e a formatura foi marcada pela sua ausência.

- Que formatura, Ri???

Ambos pareciam não compreender o que estava acontecendo, e ele que não conseguia desviar o olhar de Elise. Foi então que seus olhos pararam sobre um exemplar da Revista Manchete repousando na mesa.

Richard inclinou-se lentamente.

Sentiu os dedos esfriarem e seu coração começou a bater mais forte.

Pegou a revista com cuidado quase involuntário.

A edição trazia estampada a data:

31 de março de 1980.

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