Por alguns segundos, sua mente simplesmente se
recusou a aceitar o que estava vendo.
Richard permaneceu imóvel.
O ruído das máquinas de escrever ao redor pareceu
tornar-se distante.
O ar lhe faltou brevemente.
Não, aquilo não era possível. Não podia ser....
Seus olhos voltaram à data mais uma vez.
Um frio percorreu lentamente sua espinha.
A revista ainda mantinha o cheiro característico de
revista nova. Uma grande interrogação pairava sobre ele.
- A minha formatura do Liceu, Elise. Daquela foto
que lhe mostrei recebendo o diploma.
- Heim? Que diploma? Não estou entendendo nada,
Richard. Vamos fazer o seguinte, eu vou sair para almoçar agora, você me
acompanha e assim podermos conversar melhor.
- Sim, claro, claro.
Elise fechou uma pasta que estava sobre a sua mesa
e levantaram-se para sair.
Quando estavam se dirigindo para a saída, Elise foi
parada por uma pessoa que Richard entendeu ser a Coordenadora do setor.
- Olá Elise.
- Camile, este é o Richard. Richard essa é Camile,
Coordenadora de Operações.
Cumprimentaram-se e ela disse:
- Elise, não fala muito, mas seus olhos sempre
brilham quando fala sobre vocês. Muito prazer.
- Igualmente, ele respondeu sorrindo.
Foram para elevador e ficaram em silêncio até
chegar ao térreo, e ele foi devolver a credencial para a recepcionista.
Nesse instante, percebeu que estavam em uma
recepção bem diferente da que ele havia passado minutos antes. Elise lhe contou
que não havia recepcionistas ali e que o acesso era direto sem precisar
autorização.
Nesse momento, ele prestou atenção à música
ambiente. Era a lindíssima Rhapsody On A Theme Of Paganini de Rachmaninoff.
Richard buscou no bolso do terno a credencial que
tinha recebido, sem a encontrar e então veio a sua mente aquele apagar das
luzes do elevador e tudo ficou claro em sua mente.
Inacreditavelmente ele parecia te voltado à 1980.
Seguiram em direção à rua, quando enfim se deram as mãos. Ele olhava o
movimento da avenida quando passou por eles um Opala prateado. Levantou a
cabeça e viu que todos os veículos eram "antigos", também da época de
1980.
- Elise... que dia é hoje?
Ela sorriu, intrigada.
- Quarta-feira.
- Não... o dia. O ano...
Elise franziu levemente a testa.
- 31 de março de 1980.
O mundo pareceu silenciar ao redor de Richard. Os
ruídos da avenida tornaram-se abafados.
Ele sentiu o coração pulsar violentamente no peito
e sua respiração falhou.
Richard olhou novamente os carros, as roupas das
pessoas, os letreiros, os ônibus atravessando a avenida.
Tudo, absolutamente tudo.
Um tremor percorreu suas mãos.
Aquilo era impossível. Inconcebível.
E, ainda assim...
Elise estava ali, segurando sua mão.
Real, dentro daquele passado que ele acreditava
perdido para sempre.
Nesse momento Richard foi tomado por uma explosão
de sentimentos com a compreensão do que estava acontecendo, e pensou: aquele
filme era verdade, é possível!
E apertou levemente a mão de Elise, buscando a
certeza de que aquilo era real. E, se por acaso estivesse sonhando, desejava
apenas que o sonho não terminasse antes de descobrir como aquele reencontro
acabaria. Ainda assim, havia uma convicção absoluta dentro dele: precisava
conversar com ela naquele dia, custasse o que custasse.
Caminharam poucos metros até o mesmo shopping onde
Richard havia almoçado minutos antes. Enquanto seguiam lado a lado, Elise
comentava distraidamente sobre as aulas daquela noite, confessando não gostar
particularmente de uma das matérias. Richard sorria de vez em quando, mas sua
mente estava distante demais para conseguir desenvolver qualquer comentário.
Por dentro, sentia-se atravessado por uma inquietação quase impossível de
controlar.
Sentaram-se à mesa do Restaurante Viena, o
preferido dela. Elise pegou o cardápio, mas Richard pediu apenas uma garrafa de
água. Suas mãos transpiravam discretamente, e ele precisou respirar fundo antes
de retomar a conversa.
- Elise... eu havia marcado com você para
encontrá-la em seu colégio, lembra?
Ela sorriu imediatamente.
- Claro que lembro, Ri. Eu disse que estava ansiosa
para vê-lo. Foi por isso que lhe mandei aquela carta... Foram três páginas
escritas de madrugada.
Richard abaixou os olhos por um instante, tomado
pela emoção silenciosa daquela lembrança.
- Sim... eu me lembro dessa carta. Guardei ela
todos esses anos.
Elise o observou com certa estranheza. Algumas
respostas de Richard pareciam carregadas de um peso emocional que ela não
conseguia compreender completamente. Ainda assim, atribuiu aquilo à timidez
dele, ou ao nervosismo daquele reencontro tão esperado, e sorriu novamente,
agora de maneira mais doce e delicada.
- Então eu gostaria de lhe dizer algo. Eu preciso,
na verdade.
- Então diga...
- Elise... eu esperei muitos anos para dizer isso.”
Ela sorriu sem entender.
Richard respirou fundo.
- Talvez mais anos do que você possa imaginar... um
longo tempo se passou desde aquele nosso encontro na praça, eu quiz tanto
beijar você...
- Eu também.
Richard segurou as mãos de Elise. Estavam sentados
lado a lado.
- Elise, eu te amo! Quer ser minha namorada?

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