terça-feira, 26 de maio de 2026

Entre o Tempo e Você - Parte V

Por alguns segundos, sua mente simplesmente se recusou a aceitar o que estava vendo.

Richard permaneceu imóvel.

O ruído das máquinas de escrever ao redor pareceu tornar-se distante.

O ar lhe faltou brevemente.

Não, aquilo não era possível. Não podia ser....

Seus olhos voltaram à data mais uma vez.

  1.  

Um frio percorreu lentamente sua espinha.

A revista ainda mantinha o cheiro característico de revista nova. Uma grande interrogação pairava sobre ele.

- A minha formatura do Liceu, Elise. Daquela foto que lhe mostrei recebendo o diploma.

- Heim? Que diploma? Não estou entendendo nada, Richard. Vamos fazer o seguinte, eu vou sair para almoçar agora, você me acompanha e assim podermos conversar melhor.

- Sim, claro, claro.

Elise fechou uma pasta que estava sobre a sua mesa e levantaram-se para sair.

Quando estavam se dirigindo para a saída, Elise foi parada por uma pessoa que Richard entendeu ser a Coordenadora do setor.

- Olá Elise.

- Camile, este é o Richard. Richard essa é Camile, Coordenadora de Operações.

 Cumprimentaram-se e ela disse:

- Elise, não fala muito, mas seus olhos sempre brilham quando fala sobre vocês. Muito prazer.

- Igualmente, ele respondeu sorrindo.

Foram para elevador e ficaram em silêncio até chegar ao térreo, e ele foi devolver a credencial para a recepcionista.

Nesse instante, percebeu que estavam em uma recepção bem diferente da que ele havia passado minutos antes. Elise lhe contou que não havia recepcionistas ali e que o acesso era direto sem precisar autorização.

Nesse momento, ele prestou atenção à música ambiente. Era a lindíssima Rhapsody On A Theme Of Paganini de Rachmaninoff.

Richard buscou no bolso do terno a credencial que tinha recebido, sem a encontrar e então veio a sua mente aquele apagar das luzes do elevador e tudo ficou claro em sua mente.

Inacreditavelmente ele parecia te voltado à 1980. Seguiram em direção à rua, quando enfim se deram as mãos. Ele olhava o movimento da avenida quando passou por eles um Opala prateado. Levantou a cabeça e viu que todos os veículos eram "antigos", também da época de 1980.

- Elise... que dia é hoje?

Ela sorriu, intrigada.

- Quarta-feira.

- Não... o dia. O ano...

Elise franziu levemente a testa.

- 31 de março de 1980.

O mundo pareceu silenciar ao redor de Richard. Os ruídos da avenida tornaram-se abafados.

Ele sentiu o coração pulsar violentamente no peito e sua respiração falhou.

Richard olhou novamente os carros, as roupas das pessoas, os letreiros, os ônibus atravessando a avenida.

Tudo, absolutamente tudo.

Um tremor percorreu suas mãos.

Aquilo era impossível. Inconcebível.

E, ainda assim...

Elise estava ali, segurando sua mão.

Real, dentro daquele passado que ele acreditava perdido para sempre.

Nesse momento Richard foi tomado por uma explosão de sentimentos com a compreensão do que estava acontecendo, e pensou: aquele filme era verdade, é possível!

E apertou levemente a mão de Elise, buscando a certeza de que aquilo era real. E, se por acaso estivesse sonhando, desejava apenas que o sonho não terminasse antes de descobrir como aquele reencontro acabaria. Ainda assim, havia uma convicção absoluta dentro dele: precisava conversar com ela naquele dia, custasse o que custasse.

Caminharam poucos metros até o mesmo shopping onde Richard havia almoçado minutos antes. Enquanto seguiam lado a lado, Elise comentava distraidamente sobre as aulas daquela noite, confessando não gostar particularmente de uma das matérias. Richard sorria de vez em quando, mas sua mente estava distante demais para conseguir desenvolver qualquer comentário. Por dentro, sentia-se atravessado por uma inquietação quase impossível de controlar.

Sentaram-se à mesa do Restaurante Viena, o preferido dela. Elise pegou o cardápio, mas Richard pediu apenas uma garrafa de água. Suas mãos transpiravam discretamente, e ele precisou respirar fundo antes de retomar a conversa.

- Elise... eu havia marcado com você para encontrá-la em seu colégio, lembra?

Ela sorriu imediatamente.

- Claro que lembro, Ri. Eu disse que estava ansiosa para vê-lo. Foi por isso que lhe mandei aquela carta... Foram três páginas escritas de madrugada.

Richard abaixou os olhos por um instante, tomado pela emoção silenciosa daquela lembrança.

- Sim... eu me lembro dessa carta. Guardei ela todos esses anos.

 

Elise o observou com certa estranheza. Algumas respostas de Richard pareciam carregadas de um peso emocional que ela não conseguia compreender completamente. Ainda assim, atribuiu aquilo à timidez dele, ou ao nervosismo daquele reencontro tão esperado, e sorriu novamente, agora de maneira mais doce e delicada.

- Então eu gostaria de lhe dizer algo. Eu preciso, na verdade.

- Então diga...

- Elise... eu esperei muitos anos para dizer isso.”

Ela sorriu sem entender.

Richard respirou fundo.

- Talvez mais anos do que você possa imaginar... um longo tempo se passou desde aquele nosso encontro na praça, eu quiz tanto beijar você...

- Eu também.

Richard segurou as mãos de Elise. Estavam sentados lado a lado.

- Elise, eu te amo! Quer ser minha namorada?

Nenhum comentário:

Postar um comentário