Richard sorria leve, por haver finalmente declarado seu amor à ela.
- Eu queria trazer um flores para você, mas não
encontrei nenhuma floricultura por aqui...
- Ri, não é preciso...
Os olhos dela expressaram um sentimento recíproco.
Richard se aproximou e eles se beijaram, sorrindo, tímidos
mas muito felizes.
- Eu aceito, “Sr.” Richard, disse Elise.
Richard acariciou os cabelos dela, sem conseguir
desviar os olhos daquele olhar encantador.
- Estou muito feliz, “Sra” Elise.
- Agora por favor, me conte sobre a tal formatura
sua. Eu não entendi o que quiz dizer.
Sem conseguir disfarçar o nervosismo, ele explica,
evasivamente:
- Eu acho que sonhei com a minha formatura do
Liceu, e você não estava comigo no momento da diplomação. Tiraram fotos e eu
lhe mostrava, dizendo que aquele lugar ao meu lado pertencia a você.
- Que sonho estranho...
- Alguns são mesmo, Elise. Mas este que estamos
vivendo agora é real: eu e você, namorando.
Elise sorriu e novamente se beijaram discretamente.
Conversaram bastante depois que ela almoçou.
Falaram sobre planos para o final de semana e
combinaram que ele a acompanharia para sua escola naquela noite. Ele poderia
entrar e conhecer seu colégio, e quem sabe até cursarem juntos os dois anos que
restavam para sua graduação.
Richard mal se continha de felicidade.
Voltaram ao edifício onde ela trabalhava e se
despediram com outro beijo.
Faltavam ainda três horas para o fim do expediente
de Elise e Richard decidiu esperá-la no shopping, aproveitando para revisitar
as lojas, a moda e os objetos daquele tempo.
Entrou em uma loja de discos e permaneceu ali por
longos minutos, observando atentamente os LPs expostos. Alguns daqueles álbuns
ainda faziam parte de sua coleção décadas depois.
Enquanto lia as faixas e fichas técnicas dos
discos, não conseguia deixar de pensar em Elise e na sensação quase irreal de
finalmente estarem juntos como namorados, realizando um sonho interrompido pelo
destino.
Mas agora havia também outra sensação crescendo
silenciosamente dentro dele.
Medo.
Richard observava tudo ao redor tentando
compreender as consequências daquilo.
“E se eu alterar alguma coisa?”
“E se nada disso devesse acontecer?”
Pela primeira vez desde o encontro, sentiu um calafrio atravessar-lhe o corpo.
Ainda assim, bastava lembrar-se do sorriso de Elise
para que todas aquelas dúvidas perdessem força.
Richard já compreendia o que havia acontecido desde
o estranho apagão no elevador.
Não cogitou retornar ao trabalho.
Precisava viver aquilo.
Precisava consolidar aquela nova linha do tempo
que, de alguma forma inexplicável, lhes fora concedida.
E desejava intensamente fazê-lo, por isso
comprometeu-se consigo a acompanhá-la até a escola naquela noite. Depois
deixaria a vida os conduzir.
Às dezessete horas, pontualmente, estava diante do
edifício aguardando Elise.
A ansiedade desapareceu no instante em que a viu
sair do elevador.
Sorriu ao contemplar seus passos delicados vindo em
sua direção, acompanhados daquele sorriso que apenas ela sabia oferecer e que
era capaz de preencher seu coração de felicidade.
Naquele instante, sentiu novamente as antigas
borboletas no estômago.
Cumprimentaram-se com um beijo apaixonado e saíram
do prédio em direção à avenida.
Richard se deu conta, então, de que seu carro havia
ficado no estacionamento da empresa, na outra janela do tempo.
A percepção o atingiu de maneira abrupta.
Parou por um instante na calçada, observando as
próprias mãos. Tremiam discretamente.
Richard fechou os dedos devagar, tentando controlar
a ansiedade crescente que percorria seu corpo. Respirou fundo, mas o ar parecia
insuficiente. Uma sensação estranha de irrealidade continuava pressionando sua
mente, como se a qualquer momento ele pudesse despertar daquele cenário.
Olhou ao redor.
Os carros antigos cruzavam lentamente a avenida
iluminada pelos letreiros da época. Pessoas caminhavam usando roupas típicas do
início dos anos oitenta. O brilho das vitrines refletia-se nos vidros dos
edifícios enquanto a cidade pulsava viva ao redor deles.
Tudo parecia real demais.
Richard passou os dedos sobre a lataria de um táxi
estacionado próximo dali. Sentiu o metal frio sob a palma da mão, a pequena
irregularidade da pintura, o cheiro característico de gasolina misturado ao ar
úmido da avenida.
Se fosse um sonho, era o mais perfeito e intrigante
que já tivera.
Por um breve instante, o medo atravessou seu peito.
“E se eu estiver delirando?”
A ideia surgiu seca em sua mente.
Talvez tudo aquilo tudo fosse apenas uma construção
desesperada de sua memória.
Mas então Elise apertou suavemente sua mão,
trazendo-o de volta ao presente, ou ao passado...
Richard voltou os olhos para ela.
E imediatamente todas as dúvidas perderam força.
Ainda assim, outra inquietação começou a crescer
silenciosamente dentro dele.
“E se eu mudar alguma coisa?”
Seu coração acelerou novamente.
Porque, pela primeira vez desde que a encontrara,
compreendeu verdadeiramente a dimensão daquilo que estava vivendo.
Talvez pudesse voltar. Talvez não.
E, naquele instante, Richard percebeu algo ainda
mais sério: não tinha certeza se desejava mesmo retornar...

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