terça-feira, 26 de maio de 2026

Entre o Tempo e Você - Parte VI


 Richard sorria leve, por haver finalmente declarado seu amor à ela.

- Eu queria trazer um flores para você, mas não encontrei nenhuma floricultura por aqui...

- Ri, não é preciso...

Os olhos dela expressaram um sentimento recíproco.

Richard se aproximou e eles se beijaram, sorrindo, tímidos mas muito felizes.

- Eu aceito, “Sr.” Richard, disse Elise.

Richard acariciou os cabelos dela, sem conseguir desviar os olhos daquele olhar encantador.

- Estou muito feliz, “Sra” Elise.

- Agora por favor, me conte sobre a tal formatura sua. Eu não entendi o que quiz dizer.

Sem conseguir disfarçar o nervosismo, ele explica, evasivamente:

- Eu acho que sonhei com a minha formatura do Liceu, e você não estava comigo no momento da diplomação. Tiraram fotos e eu lhe mostrava, dizendo que aquele lugar ao meu lado pertencia a você.

- Que sonho estranho...

- Alguns são mesmo, Elise. Mas este que estamos vivendo agora é real: eu e você, namorando.

Elise sorriu e novamente se beijaram discretamente. Conversaram bastante depois que ela almoçou.

Falaram sobre planos para o final de semana e combinaram que ele a acompanharia para sua escola naquela noite. Ele poderia entrar e conhecer seu colégio, e quem sabe até cursarem juntos os dois anos que restavam para sua graduação.

Richard mal se continha de felicidade.

Voltaram ao edifício onde ela trabalhava e se despediram com outro beijo.

Faltavam ainda três horas para o fim do expediente de Elise e Richard decidiu esperá-la no shopping, aproveitando para revisitar as lojas, a moda e os objetos daquele tempo.

Entrou em uma loja de discos e permaneceu ali por longos minutos, observando atentamente os LPs expostos. Alguns daqueles álbuns ainda faziam parte de sua coleção décadas depois.

Enquanto lia as faixas e fichas técnicas dos discos, não conseguia deixar de pensar em Elise e na sensação quase irreal de finalmente estarem juntos como namorados, realizando um sonho interrompido pelo destino.

Mas agora havia também outra sensação crescendo silenciosamente dentro dele.

Medo.

Richard observava tudo ao redor tentando compreender as consequências daquilo.

“E se eu alterar alguma coisa?”

“E se nada disso devesse acontecer?”

Pela primeira vez desde o encontro, sentiu um calafrio atravessar-lhe o corpo.

Ainda assim, bastava lembrar-se do sorriso de Elise para que todas aquelas dúvidas perdessem força.

Richard já compreendia o que havia acontecido desde o estranho apagão no elevador.

Não cogitou retornar ao trabalho.

Precisava viver aquilo.

Precisava consolidar aquela nova linha do tempo que, de alguma forma inexplicável, lhes fora concedida.

E desejava intensamente fazê-lo, por isso comprometeu-se consigo a acompanhá-la até a escola naquela noite. Depois deixaria a vida os conduzir.

Às dezessete horas, pontualmente, estava diante do edifício aguardando Elise.

A ansiedade desapareceu no instante em que a viu sair do elevador.

Sorriu ao contemplar seus passos delicados vindo em sua direção, acompanhados daquele sorriso que apenas ela sabia oferecer e que era capaz de preencher seu coração de felicidade.

Naquele instante, sentiu novamente as antigas borboletas no estômago.

Cumprimentaram-se com um beijo apaixonado e saíram do prédio em direção à avenida.

Richard se deu conta, então, de que seu carro havia ficado no estacionamento da empresa, na outra janela do tempo.

A percepção o atingiu de maneira abrupta.

Parou por um instante na calçada, observando as próprias mãos. Tremiam discretamente.

Richard fechou os dedos devagar, tentando controlar a ansiedade crescente que percorria seu corpo. Respirou fundo, mas o ar parecia insuficiente. Uma sensação estranha de irrealidade continuava pressionando sua mente, como se a qualquer momento ele pudesse despertar daquele cenário.

Olhou ao redor.

Os carros antigos cruzavam lentamente a avenida iluminada pelos letreiros da época. Pessoas caminhavam usando roupas típicas do início dos anos oitenta. O brilho das vitrines refletia-se nos vidros dos edifícios enquanto a cidade pulsava viva ao redor deles.

Tudo parecia real demais.

Richard passou os dedos sobre a lataria de um táxi estacionado próximo dali. Sentiu o metal frio sob a palma da mão, a pequena irregularidade da pintura, o cheiro característico de gasolina misturado ao ar úmido da avenida.

Se fosse um sonho, era o mais perfeito e intrigante que já tivera.

Por um breve instante, o medo atravessou seu peito.

“E se eu estiver delirando?”

A ideia surgiu seca em sua mente.

Talvez tudo aquilo tudo fosse apenas uma construção desesperada de sua memória.

Mas então Elise apertou suavemente sua mão, trazendo-o de volta ao presente, ou ao passado...

Richard voltou os olhos para ela.

E imediatamente todas as dúvidas perderam força.

Ainda assim, outra inquietação começou a crescer silenciosamente dentro dele.

“E se eu mudar alguma coisa?”

Seu coração acelerou novamente.

Porque, pela primeira vez desde que a encontrara, compreendeu verdadeiramente a dimensão daquilo que estava vivendo.

Talvez pudesse voltar. Talvez não.

E, naquele instante, Richard percebeu algo ainda mais sério: não tinha certeza se desejava mesmo retornar...

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